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Ideologia e Política | Luiz Marques

Meus heróis

Morreram de overdose

Meus inimigos estão no poder

Ideologia!

Eu quero uma pra viver

Ideologia!

Eu quero uma pra viver”

– Cazuza

-O Oriente e o Ocidente

Antônio Francesco Gramsci, o teórico que morreu nos cárceres de Mussolini, elaborou reflexões sobre por que a revolução ocorreu na Rússia atrasada (1917) e não em países desenvolvidos como a Inglaterra, a Alemanha ou a França. A resposta não escorregou para o elogio acrítico do voluntarismo dos bolcheviques ou da individualização da enrgia revolucionária de Lenin e Trotski. Antes, comparou as estruturas estatais existentes no Oriente e no Ocidente. Não era questão de vontade política ou da genialidade dos líderes do putsh, conforme lê-se no relato hagiográfico descrito por John Reed (10 Dias que Abalaram o Mundo, 1967). Mas resultado de uma estratégia adequada às circunstâncias históricas da região.

No Oriente, de regimes despóticos, o Estado “era tudo” e a sociedade civil “primitiva e gelatinosa”, sendo adequada a estratégia de “guerra de movimento”. O poder estava localizado em um locus (Bastilha, Palácio de Inverno, Palácio de La Moneda, Casa Rosada), e podia ser tomado pelo enfrentamento político-militar direto pela posse desse território simbólico a Leste. Foi o que sucedeu sob o czarismo.

No Ocidente, de regimes liberal-democráticos, o Estado “era ampliado”, abarca o aparato governamental da “sociedade política” (O Executivo, o Judiciário e o Legislativo) e também a “sociedade civil”. Aqui a estratégia apropriada para a consecução do poder é a “guerra de posição”, em vez do choque aberto. Deve prevalecer o trabalho de convencimento das maiorias, sem o alegado heroismo das jornadas épicas com que as irrupções revolucionárias costumam ser pintadas desde a Revolução Francesa (1789). Na região ocidental, o poder está protegido por um envólucro relacional que engloba organizações trabalhistas e patronais, universidades, escolas, igrejas, sindicatos, meios midiáticos, redes sociais, e todo tipo de coletivos associativos, de torcidas organizadas de fiutebol a clubes de tiro e náuticos… A Oeste, o poder não se identifica com um locus em específico. Ele está espalhado por “tricheiras e casamatas” em todos os lugares.

A sociedade civil fica entre as estruturas econômicas e a sociedade política (o Estado, com sua legislação e coerção). Hoje a esquerda e a direita estão familiarizadas, se não na teoria então na prática, com a necessidade de aprimorar os confrontos narrativos para respaldar a cosmovisão de seus respectivos projetos de poder. Ambas investem no esforço militante de persuasão para ganhar os corações e as mentes. Sabem que todos os bolsões de cidadania são importantes para garantir a hegemonia, em conjunturas em que o consentimento majoritário é a via incontornável para pavimentar o acesso ao poder através dos processos eleitorais.

– Ideologia: relação de poder

No Brasil, a esquerda e a direita disputam a consciência da sociedade civil em um terreno conhecido: o sistema de representação que transcendeu as etapas censitária (voto só para os proprietários), sexista (voto só para os homens) e escolar (voto só para os alfabetizados), tornando as eleições integralmente universais a partir de 1988. Construir um largo consenso político é o objetivo das ideologias e projetos díspares no arco daqueles que têm a opção preferencial pela guerra de posição.

A esquerda e a direita, no quadro representacional clássico, compartilham o “conceito político de ideologia” que incide (sem falsear) sobre a realidade concreta. A extrema-direita sequestra o real, faz do delírio o leitmotiv da ação, o impulso à desconstrução das narrativas que recordam a modernidade. E, das diferenças, o motivo para insurgir-se em nome de uma unicidade avessa à diversidade.

Comungam a ideologia “como relação de poder” voltada, ou às demandas populares, ou às reivindicações do mercado. Independente da direção, labutam por um programa de transformação ou manutenção da ordem com apoio na opinião pública. Nessa acepção, a ideologia é uma força que age na cotidianidade, bem como sobre as instâncias da superestrutura: os valores morais, jurídicos, filosóficos, estéticos, religiosos, econômicos… Karl Marx expôs essa compreensão no Manifesto de 1848, ao apontar que a ideologia dominante em cada período histórico-social tende a ser a ideologia das classes dominantes. Das finanças, no caso do neoliberalismo.

– Ideologia: imaginário social

O nó, diante da crise da democracia representativa (“não me representa”) e a ascensão da extrema-direita (“totalitária”, porque invade a vida privada), reside em que as contendas políticas não se dão mais com “adversários” em um contexto de normalidade. Dão-se com a semântica “amigo-inimigo” do jurista nazista Carl Schmitt (O Conceito do Político, 1927-32), visando exterminar oponentes interpretados à guisa de ameaças à soberania do Estado. Ou de um Eu, no caso Louis XIV, que dizia “L’Etat c’est Moi” ( O Estado sou Eu)., lembrando a recente declaração de Jair Bolsonaro ao afirmar que só desce do trono em um caixão: “Só Deus me tira da cadeira presidencial” (16/04/2021). Fosse um presidente republicano diria “só o povo soberano tem o direito de me depor”.

A versão de ideologia dos nazifascistas constitui-se “como imaginário social”. Viola a razão iluminista. Interdita o debate democrático. Conduz ao mascaramento da realidade social. Nega o regime liberal-democrático. Ensaia a guerra de movimento para alcançar ou manter o poder. Vide o ataque incitado por Trump ao Capitólio, sede do Congresso estadunidense, na sequência da derrota para Biden. Ou a ameaça da familiciana bolsonarista ao especular “um soldado e um cabo” para fechar o guardião da Constituição, o Supremo Tribunal Federal (STF) – cão que late, morde.

As correntes do nazifascismo adotam o “conceito epistemológico de ideologia”, que falseia o conhecimento e os conteúdos criando uma pseudorrealidade. Exemplos: a crença no terraplanismo, a pregação contrária às vacinas, o exercício da necropolítica, a abstinência na pauta da educação sexual, a pantomima nacionalista que acoberta a entrega do patrimônio nacional. Ao que poderiam se juntar as fake news e as deep fakes. Para lembrar Schopenhauer, “procuram nas nuvens aquilo que está sob os seus pés”. Os surtos delirantes têm a função de instrumentalizar a indignação teatral para atacar as instituições do status quo (a democracia liberal). Sua visão ideológica provoca o efeito da distrorção de imagens na “câmera obscura” de uma máquina fotográfica. Fenômeno estudado no continente teórico de Marx: em particular, na Sagrada Família (1845) e na Ideologia Alemã (1845-46).

– Resumo

A) A “ideologia como relação de poder” traduz uma concepção de mundo vinculada a um projeto político para conquistar a adesão da sociedade civil. É uma dimensão inseparável da política. Busca a hegemonia. Pratica a guerra de posição. Perfila-se com os vetores da modernidade, no regime liberal-democrático. À esquerda, enfatiza a participação direta. À direita, salienta a representação parlamentar e coibe o fortalecimento do povo. Mas com respeito aos procedimentos institucionais, nas pegadas de Norberto Bobbio (O Futuro da Democracia: Defesa das Regras do Jogo, 1986). Lida com o coneceito político de ideologia. Busca a persuasão..

B) A “ideologia como imaginário social” mascara a realidade social para reforçar o establishment. Em termos epistemológicos, falseia o conhecimento e os conteúdos. Emoldura o autoritarismo da extrema-direita. Usa a democracia para suplantar o regime liberal-democrático em diversas nações na atualidade (Brasil, Colômbia, Hungria). Os extremistas tendem a protagonizar a guerra de movimento e fetichizar o poder. Opõem à modernidade o Tradicionalismo, conforme lê-se em.Benjamin Teitelbaum (Guerra pela Eternidade: o Retorno do Tradicionalismo e a Ascensão da Direita Populista, 2020). Lida com a força em vez do convencimento.

As duas faces da ideologia revelam modos políticos antagônicos de deliberar sobre temas de incidência na sociedade civil. Não há “centro político” nessa polarização de cunho histórico, que extrapola conjunturas ao dispor as peças no tabuleiro. Há, sim, dois terrenos opostos. Seria o momento de perguntar: em quais campos se situarão Lula & democratas e Bolsonaro & apoiadores nas próximas eleições?

  • Luiz Marques é professor universitário, UFRGS

“A pedido do autor, o texto foi reescrito a fim de maior clareza e compreensão para a leitura dos companheiros e companheiras. Obrigado”.

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