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Impressões, impressionismo e realidades | Ronivaldo Maia e João Aglaylson

A história brasileira é repleta de golpes. A própria proclamação da república foi um golpe dado por militares, velhos aliados do imperador. De lá pra cá tivemos o Estado Novo, a derrubada de Getúlio e a crise que culminou com seu suicídio; a tentativa de impedir a posse de Jango, que Brizola e alguns militares legalistas conseguiram reverter; e o golpe de 64, ajudado pelo imperialismo ianque que instaurou no país uma ditadura sanguinária.

Da reabertura política até os dias de hoje, o país vive o maior período democrático de sua história. Com a ascensão de Bolsonaro e do bolsonarismo ao poder, vive-se a permanente ameaça de um novo golpe no Estado Democrático de Direito. Mas é possível que isso aconteça? Vendo o decorrer de como o Estado brasileiro se desenvolveu com seu autoritarismo elitista, violento, patrimonialista e subserviente ao imperialismo, é bem possível.

Contudo, avalio extremamente difícil um golpe militar, no sentido clássico e histórico. Um golpe precisa de uma convergência de fatores que não estão dados. Primeiro, uma narrativa que aglutine a maioria da sociedade. Em 64 tínhamos o “perigo do comunismo”. Tirando os Bolsonaristas mais estúpidos e xiitas, ninguém compra essa narrativa. Segundo, um apoio do imperialismo. Mesmo não confiando nos americanos, acho pouco provável que eles apoiem uma aventura dessas, até porque há outros interlocutores da burguesia brasileira com o atual governo norte-americano que não possui essa confiança toda no atual presidente brasileiro.
Lembrando que Eduardo Bolsonaro convidou Trump a visitar o Brasil, que eles continuem agindo assim. Terceiro: não há uma unidade dos poderes econômicos, midiáticos, militares e políticos para instaurar um governo ditatorial no Brasil.
Em 64, os meios de comunicação, a burguesia industrial, comercial e financeira, a Igreja Católica, o poder judiciário, o congresso e a grande maioria dos governadores apoiaram a quebra do regime democrático. E por último, falta apoio popular. Bolsonaro não reúne nenhuma dessas condições.

Não confundamos a pauta econômica neoliberal que unifica a burguesia com a pauta bolsonarista, que vai além do neoliberalismo. Apoiar a entrega do Estado e a retirada de direitos sociais tem acordo político entre os diversos setores da direita. Mas as sucessivas insinuações de tentativas de interrupção da democracia brasileira têm sido rebatidas e enfrentadas por representantes da própria burguesia, desde membros do STF, da grande mídia e setores empresariais. Sobre o papel que o STF vem desenvolvendo nessa disputa, é improvável que os ministros enfrentem Bolsonaro sem antes dialogarem com militares e empresários.

O episódio do desfile militar ocorrido no dia 10 de agosto é mais um arroubo de Bolsonaro na tentativa de intimidar e demonstrar força. Como militar, ele conhece bem de tática e estratégia, mas o tiro saiu pela culatra. Além de pouca mobilização popular, serviu apenas para as FFAA serem ridicularizadas e questionadas.

Um golpe não se anuncia, se aplica. Para tanto, se Bolsonaro pretende golpear a democracia e se auto proclamar ditador, ele precisa rever métodos e construir convergências e não se isolar cada vez mais.
E qual o papel da esquerda? Continuar e intensificar a campanha Fora Bolsonaro; ampliar o diálogo com setores que possam apoiar a candidatura de Lula; apresentar para a sociedade um projeto anti-bolsonarista (emprego, renda, saúde e defesa da democracia devem ser o eixo central); Fortalecer o partido e os movimentos sociais.

  • Ronivaldo Maia é líder da bancada de vereadores do PT na Câmara Municipal de Fortaleza
  • João Aglaylson é militante da DS/CE

Ilustração: Portal do PT

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