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Mata e culpa o morto | Dr. Rosinha

Os encontrarei ou – viraram números – estarão entre os mais de 500 mil que morreram por – Covid-19 – não serem atletas

No Uma história da Leitura, Alberto Manguel escreve que quando tinha dezesseis anos de idade, em 1964, arranjou um emprego numa livraria anglo-germânica de Buenos Aires.

Dona Lily Lebach, a proprietária, deu-lhe a tarefa diária de tirar o pó de cada um dos livros que estavam nas prateleiras.

Segundo Manguel, a dona Lily julgava que limpar, um a um, era bom método para conhecer todos os livros e autores e a localização deles nas estantes.

Não sei se há algum método “científico” ou é – aleatório – a cabeça do proprietário que organiza a disposição dos livros nas estantes das livrarias. Parece sempre tão bem organizadas.

Vi poucas livrarias – no passado, algumas delas, talvez, por excesso de estoque – com livros empilhados.

Com sebos é diferente. Sinto que em alguns a desorganização é a marca. Mas o que pode ser desorganizado para mim é a própria organização do local.

“Organizado” ou “desorganizado” é a organização do proprietário que – sem o auxílio de computador – sabe os livros que têm e ondes estão.

No geral quem desorganiza o local é o frequentador que tira o livro e não o devolve no mesmo local, se é que – sem dinheiro naquele momento – não roubou ou escondeu-o em outro local para voltar um dia e comprá-lo.

Eu mesmo já deixei o livro – escondido – fora do local para voltar num outro dia e comprá-lo.

Poucas – talvez umas três – vezes entrei num sebo ou livraria sabendo o que queria: tipo chegar no balcão, perguntar pelo título ou o autor e sair com o livro nas mãos.

Para mim é um sofrimento fazer isso sem dar um passeio pelo sebo ou pela livraria.

Sempre entrei – se não para comprar – para passear entre os livros [ou os livros passearem por mim?], sentar e despretensiosamente ler alguma página ou páginas, folhear livros, revistas e jornais.

Se tiver a placa “não folhear”, vou embora. Não quero que alguém venha me perguntar: “não viu a placa ou não sabe ler?”.

Dono de livraria ou de sebo que coloca este tipo de placa não está preparado para vender livros, revistas e jornais. Estes locais não são só para comércio.

Jornais da chamada imprensa alternativa do período da ditadura e da retomada da “democracia” são valiosos em termos históricos e culturais: quando encontro-os, como não os folhear?

Folheá-los com cuidado, pois alguns estão “desmontando”, “esfarelando”. Há casos que a consciência manda não tocá-los.

Nos sebos a poesia não está só no conteúdo de livros, está em todo o ambiente: nas roupas das pessoas que frequentam, na desorganização dos livros e LPs, no rosto e na cara de surpresa do encontro de um “objeto”, às vezes, por muito tempo procurado ou desejado.

Ah! Se tiver uma dedicatória com a assinatura do/a autor/a a alegria é maior, gera até um sorriso, e como está rindo sozinho olha dos lados para ver se ninguém assistiu aquele momento de prazer. Vá que imaginam que esteja louco, destes de rir sozinho.

Nos sebos, assim que chego, percorro os corredores entre as prateleiras. Faço isso rápido, como que para o reconhecimento do terreno. Depois volto para onde encontrei “saliências, reentrâncias, vales, águas límpidas ou turvas…” e analiso com mais atenção.

Em quase todos os sebos há um cantinho “escondido” que – me dá a impressão – existe só por capricho do dono ou dona. Estes cantinhos parecem ser ricos e muitas vezes são proibidos – não sei porque – de entrarmos.

Estou numa idade que estar num sebo não é mais só prazer. Se houver a necessidade de se abaixar ou agachar para procurar ou simplesmente ver livros às rés do chão, é um deus nos acuda. Ao me levantar e endireitar o corpo clamo por todos os deuses e deusas.

Se agachar tenho que me levantar lentamente, caso contrário corro o risco de cair por uma hipóxia cerebral. Se não caio tenho que devagar arrumar, com muito jeito e movimentos lentos, as costas. Por menor que seja há sempre uma dor e se não cuidar trava.

Há sebos que têm banquinhos baixinhos, ajuda, mas não impede a dor na coluna e tampouco afasta o risco da tontura.

Não gosto de sebo que está desarrumado, é difícil de ver as coisas. Gosto daqueles em que os livros estão classificados por temas e com os títulos na vertical e no mesmo sentido.

No mínimo é desconfortável quando os livros estão colocados – lado a lado – com os títulos invertidos: uns com o título na vertical de cima para baixo e outros no sentido contrário. Os olhos têm que “plantar bananeiras” para ler.

Nesse meio todo há livros com dedicatórias e – nem sempre compro – leio-as e no próprio sebo faço as minhas reflexões: o livro foi vendido por que não gosta de poesia? Não gostou do/a autor/a?

Perdeu o livro e quem achou o vendeu para o sebo?

Vendeu um “pacote” de livros e sem querer este foi junto?

Nos sebos o tempo passa rápido. A vida e o tempo têm outro ritmo.

Nos sebos a vida enche de curiosidades, histórias, surpresas…

Surpresas!?

Pós-pandemia quantas surpresas terei ao voltar – se é que voltarei – a frequentar os sebos?

Aquele homem – estranho homem – que parece não tomar banho estará lá?

O “carrancudo” que nem cumprimentava estará lá?

A mulher que sentava em silêncio e ficava lendo estará lá?

O rapaz – funcionário – que sabia onde estavam todos os livros estará lá ou encontrarei um “Manguel” limpando um a um os livros das estantes?

Encontrarei-os ou – viraram números – estarão entre os mais de 500 mil que morreram por – Covid-19 – não serem atletas. Culpados por serem portadores de obesidade, pressão alta, asma, diabete, … e por não terem vacinas.

Bolsonaro mata e culpa o morto.

  • Dr. Rosinha é médico aposentado e ex-deputado.
  • Publicação original: PLURAL

Ilustração: Benett.

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