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Neoliberalismo, pandemia, vidas precárias: desafios para o feminismo | Nalu Faria

A partir das resistências, resiliências e propostas das mulheres, essa visão do feminismo como parte de um projeto anti sistêmico concretiza uma ação que coloca a vida no centro – Vincenzo Pinto/AFP

Hoje começa a Coluna Sempreviva, espaço quinzenal da SOF Sempreviva Organização Feminista no Brasil de Fato. Diante dos desafios impostos por esta fase do capitalismo racista e patriarcal, que avança sobre nossas vidas com uma rapidez extraordinária, nos colocamos a tarefa de apresentar com maior frequência nossas reflexões, análises e chamados a partir da perspectiva feminista.

Se acompanhamos as notícias do mundo ou observamos a realidade das pessoas ao nosso redor, percebemos como a precarização do trabalho, a escassez de bens naturais, a violência e a criminalização acompanham, cada vez mais, a dureza do cotidiano. A pandemia do novo vírus covid-19 expõe, de forma ainda mais drástica, o embate do capital contra a vida, que vem sendo rifada pelo governo Bolsonaro, sem cuidado, prevenção ou solidariedade, em nome do lucro e da produção capitalista.

Neste ano de 2020, como parte da Marcha Mundial das Mulheres, organizamos nossa ação em torno da consigna Resistimos para viver, marchamos para transformar! Queremos desmantelar o atual modelo, que é capitalista, patriarcal, racista, LGBTfóbico, colonialista e se organiza em uma lógica de acumulação irreconciliável com a sustentabilidade da vida.

As dinâmicas impostas por esse modelo passam, hoje, por uma piora aguda, através de uma ofensiva conservadora e neoliberal sobre a vida, os territórios e o trabalho das mulheres e da população empobrecida em geral. Essa ofensiva precariza a vida, banaliza e deteriora democracias e fortalece autoritarismos. O conservadorismo se apresenta estritamente ligado a projetos de poder e controle dos povos e das mulheres.

O autoritarismo e a violência da extrema direita revelam uma agenda antifeminista, articulada com o racismo, a xenofobia e demais dinâmicas de dominação e exploração baseadas em classe e raça – não só no Brasil, mas também, por exemplo, na Turquia, nas Filipinas, nos Estados Unidos.

A burguesia tem imposto ataques sistemáticos à organização da classe trabalhadora, em particular aos sindicatos. Sua luta continua marcada pela resistência, mas em um quadro de fragilidade, precarização e fragmentação da classe trabalhadora, resultante da alteração nas formas de trabalho, mais informais, com sobrecarga e ênfase em discursos sobre meritocracia e concorrência.

Nas Américas, observamos processos de articulação e aliança entre as formas tradicionais de organização e novas mobilizações, potentes e amplas, dos povos originários, camponeses, negros e negras, LGBTTQI, das periferias, jovens, mulheres.

É nessa mesma toada que houve, nos últimos anos, um crescimento expressivo das mobilizações das mulheres e ampliação do feminismo no mundo inteiro, uma das principais forças políticas na atualidade. Isso evidentemente não se dá de forma homogênea: tem diferenças, por exemplo, entre visões liberais e anti sistêmicas.

Olhando para o conjunto, vê-se que a dificuldade é na construção de processos organizativos amplos, democráticos e continuados. São as limitações de uma dinâmica que funciona muito pela adesão pontual a mobilizações, muitas vezes a partir de ações de impacto midiático1.

É no campo popular e classista do movimento feminista que se coloca com força a defesa da vida e de um outro modelo, que vá muito além da luta por direitos e pela igualdade com os homens dentro do atual sistema. O ruído gerado pelas grandes empresas, que usam alguns temas do feminismo (a chamada “maquiagem lilás”) resulta em uma banalização, uma espécie de armadilha que as feministas precisam sempre identificar e denunciar.

Por isso, é preciso incorporar ao debate global a perspectiva feminista sobre o que deve ser o desmantelamento do capitalismo racista e patriarcal. E, junto a isso, reforçar a construção permanente, a coesão, a ação coletiva, a definição democrática das agendas, tendo a aliança como princípio de luta.

A partir das resistências, resiliências e propostas das mulheres, essa visão do feminismo como parte de um projeto anti sistêmico concretiza uma ação que coloca a vida no centro, através da compreensão de nossa interdependência como seres humanos e de nossa dependência da natureza.

A pandemia que os povos de todo o mundo enfrentam hoje é um exemplo drástico dessas interdependências e da urgência de uma nova organização social. A pandemia escancara os males da austeridade, do predomínio da lógica de mercado e da precarização da vida, e exige respostas que são emblemáticas.

A necessidade do isolamento evidencia que nem todos e todas têm esse direito, que é delimitado pela classe, pela raça e também pelo gênero. Revela com agudeza a postura das elites de garantir o lucro e o conforto em detrimento da saúde de quem trabalha para elas.

E revela, também, quais os trabalhos realmente necessários para a sustentação da vida, dentro e fora de casa. Expõe suas lacunas, que devemos preencher coletivamente, através da urgência da solidariedade e da construção de ações comuns, autogestionadas, bem como da necessidade de proteção social, garantia da saúde, saneamento, abastecimento… Essa necessidade se coloca, hoje, como uma emergência, mas é nosso horizonte, enquanto feministas: uma reorganização social profunda, radical, que coloque a vida em primeiro lugar.

Nalu Faria é psicóloga e coordenadora da SOF Sempreviva Organização Feminista e membro do Comitê Internacional da Marcha Mundial das Mulheres.

1 Desenvolvi mais esta ideia no artigo “Desafios feministas frente à ofensiva neoliberal”, que está no caderno da SOF “Feminismo em resistência: crítica ao capitalismo neoliberal” (2019), disponível online em: www.sof.org.br/feminismo-em-resistencia-critica-ao-capitalismo-neoliberal/

Publicado originalmente em Brasil de Fato.

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