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“Nossos passos vêm de longe” | Carol Dartora

Certa vez na cidade de Curitiba, onde nasci e cresci, depois de um bom tempo em que procurava emprego, encontrei uma vaga em uma loja no Alto da XV, região central da cidade. Tinha 18 anos e ainda me dizia evangélica. A dona da loja onde estava trabalhando, uma mulher branca de uns 50 anos também se dizia evangélica e gostava de começar os dias de trabalho com uma leitura bíblica e oração. 

Em meu primeiro dia de trabalho fiquei animada em começar o dia com uma devoção. Essa senhora reuniu todos os trabalhadores da loja, pediu pra que fizéssemos um círculo e fechássemos os olhos. Foi o que fiz com o coração cheio de fé e esperança no dia, no começo do trabalho.  

No entanto, a senhora interrompeu aquele momento dizendo que eu não tinha fechado os olhos, me questionou por que eu estava debochando do momento, o que pra mim não fazia sentido. Ela me constrangeu na frente de todos, dizendo que sentiu que havia algo de ruim em mim, que Deus revelou a ela que tinha alguém trazendo uma maldição, eu a única pessoa negra naquele espaço. 

No mesmo dia perdi o trabalho. Vivi inúmeras situações semelhantes. Comecei este artigo trazendo essa memória porque hoje, como primeira deputada federal negra pelo estado do Paraná, é uma enorme satisfação chegar em novembro, mês da Consciência Negra, fazendo parte da instituição Bancada Negra na Câmara de Deputados. 

Bancada dentro de um país marcado pelo racismo estrutural e institucional, onde a branquitude é associada a uma série de privilégios, vantagens sociais, econômicas e políticas dentro de uma estrutura de poder racial. Estrutura na qual indivíduos brancos tendem a ocupar uma posição de vantagem em relação a grupos étnicos e minorias políticas, onde existe uma estrutura de poder e privilégio, que se manifesta de várias maneiras incluindo: 

Acesso privilegiado a oportunidades: Indivíduos brancos frequentemente têm acesso mais fácil a oportunidades de emprego, educação de qualidade, cuidados de saúde e moradia em comparação com indivíduos não brancos. 

Representação política e cultural: A branquitude muitas vezes se reflete na representação política e cultural, com a predominância de líderes políticos, figuras públicas e modelos de beleza que se enquadram nos padrões estéticos brancos, reforçando assim a superioridade branca na sociedade. 

Impunidade e justiça seletiva: A branquitude pode resultar em um sistema de justiça que tende a ser mais indulgente com indivíduos brancos, enquanto os indivíduos não brancos são frequentemente sujeitos a tratamento desigual e injustiças estruturais, como perfilamento racial e violência policial. 

Perpetuação de estereótipos e preconceitos: A branquitude contribui para a perpetuação de estereótipos e preconceitos raciais que associam características negativas a pessoas não brancas, resultando em discriminação e marginalização contínuas. 

Ter a bancada negra na Câmara dos Deputados ou em qualquer outro órgão legislativo desempenha um papel fundamental na representação e defesa dos interesses da comunidade negra e de outras comunidades historicamente marginalizadas. Sua importância pode ser destacada de diversas maneiras: 

Representação direta: A presença da bancada negra na Câmara proporciona representação política direta para os interesses e demandas da população negra e de outras minorias étnicas, permitindo que suas vozes sejam ouvidas e consideradas na formulação de políticas públicas e na legislação. 

Advocacia por políticas públicas inclusivas: A bancada negra pode advogar por políticas públicas que visem reduzir as desigualdades sociais e econômicas enfrentadas pela população negra, como a implementação de ações afirmativas, a criação de programas de inclusão social, o combate ao racismo estrutural e institucional, entre outras iniciativas relevantes. 

Combate ao racismo institucional: Os membros da bancada negra têm a oportunidade de identificar e denunciar casos de discriminação racial e promover mudanças legislativas que visem a erradicar o racismo institucional em todas as esferas da sociedade. 

Educação e conscientização: A bancada negra pode desempenhar um papel crucial na educação e conscientização da população em geral sobre as questões relacionadas à discriminação racial e à história e cultura afro-brasileira, contribuindo para a promoção de uma sociedade mais inclusiva e igualitária. 

Fortalecimento da democracia: A presença de representantes da bancada negra na Câmara fortalece os princípios democráticos de representatividade e participação política, garantindo que os interesses e necessidades das comunidades negras sejam levados em consideração no processo decisório. 

Em resumo, a bancada negra desempenha um papel crucial na promoção da igualdade racial, no combate à discriminação e no fortalecimento da democracia racial que ainda não se aplica ao Brasil.  

Portanto, destruir aquilo que promove a desigualdade, como estrutura de poder e privilégio, requer um esforço coletivo para reconhecer e confrontar o racismo e a discriminação racial em todas as esferas da sociedade. Chegamos nesse mês de novembro de 2023, às vésperas do Dia da Consciência Negra comorando muito alguns passos à frente rumo a Democracia! 

Carol Dartora é Deputada Federal do PT/PR .

 

REFERÊNCIAS: 

MBEMBE, A. Crítica da razão negra, São Paulo:  2018. 

BENTO, Cida. Pacto da Branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. 

FISHER, Mark. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? 2020. 

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