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O futuro começa agora | Luiz Marques

– Paradigma capitalista

Esse texto avança sobre a publicação de Boaventura de Souza Santos (O Futuro Começa Agora: da Pandemia à Utopia, 2021). Não se trata de uma resenha, mas de abordar as ideias expostas no livro (Parte II, caps. 9 e 10). Aos moldes do que fizera com outra passagem (Parte I, cap. 1), no artigo intitulado O Inimigo, o Mensageiro e o Pedagogo (Democracia Socialista, 26/04/2021). O objetivo é dividir com os leitores as reflexões de um dos mais notáveis e criativos pensadores da atualidade. E subsidiar a crítica política à dinâmica predatória do paradigma capitalista.

Sousa Santos recua à época da expansão do colonialismo europeu (século XVI) e à primeira revolução industrial do mundo ocidental (década de 1830). Entende que esses momentos deflagraram o metabolismo social característico do paradigma capitalista que, no devir, resultou em um desequilíbrio abissal nos fluxos entre a sociedade e a natureza desembocando no novo coronavírus

O desequilíbrio agravou-se até chegarmos aos nossos dias na situação de iminente catástrofe ecológica. Para que a situação não se torne irreversível e ponha em sério risco a vida no planeta Terra, é necessário um processo de transição para um tipo de metabolismo social baseado em outra relação entre sociedade e natureza. Nisso consiste a transição paradigmática”, enfatiza o professor.

Como na famosa canção de Geraldo Vandré, “quem sabe faz a hora / não espera acontecer”. Há urgência no esforço para que a humanidade consiga preservar Gaia às próximas gerações. Nunca foi tão crucial uma consciência filogenética, isto é, de espécie. Como empreender essa transição com viés libertador?

– As três fontes da utopia

Contrárias ao tripé histórico da dominação capitalista (exploração econômica), colonialista (opressão racista) e patriarcal (opressão sexista), a utopia se alimenta em três níveis. Vejamos de perto cada uma dessas fontes:

A) As“ruínas-semente” são uma memória anterior à destruição e ao sofrimento causados pelo capitalismo, o colonialismo e o patriarcado. Mas, simultaneamente, uma alternativa de futuro. Englobam conceitos, filosofias e práticas que os sujeitos reconhecem como originais e autênticas, apesar de derrotadas. “Essa nostalgia é vivida de modo antinostálgico… Consiste na invocação do mundo anterior à intervenção moderna eurocêntrica, mas o modo invocado é moderno, representa a aspiração de uma modernidade futura”. São: “Ruínas vivas porque são vividas por vivos na sua prática de resistência e de luta por um futuro alternativo.

Funcionando simultaneamente como ruínas e sementes, as lembranças energizam a imaginação utópica. Em vez de reduzir o passado a uma série de traumas, genocídios e guerras, depreendem que “Outro Mundo é Possível” inspirado nos destroços de uma sociedade que, com coragem, abria-se para a história quando foi brutalizada terrivelmente. Daí o temor de um bumerangue pelos opressores e as reações sempre violentas às iniciativas para superar o paradigma capitalista.

Para os colonizadores as ruínas representam a face obscura e brutal que a modernidade eurocêntrica esconde de si mesma, sem lograr eliminar a semente. Para os colonizados são um sinal de que o projeto destrutivo não foi de todo vencedor. O que restou na memória testemunha o resgate da energia imprescindível à construção de outra realidade. Não implica em uma volta nostálgica ao passado, senão em um convite para descortinar horizontes libertários e igualitários.

B) As “apropriações contra-hegemônicas” constituem uma forma de fazer emergir a esperança, ressignificando os construtos conceituais e as práticas dos grupos sociais dominantes. Movimento que abarca setores que vão, das cotas étnicas de reparação na institucionalidade às elaborações filosóficas de Ailton Krenak, ambientalista, ex-deputado constituinte e uma das principais lideranças indígenas no Brasil. Cruzando pelo trabalho da fundadora do Instituto da Mulher Negra, Sueli Carneiro, ao elaborar um pensamento sobre temas raciais a partir de noções formuladas por Michel Foucault. Responde-se, por aí, à pergunta central do Manifesto Antropofágico (1927), de Oswald de Andrade: “Tupi or not tupi, that is the question.”

A pergunta se estende aos pensadores populares (Luiz Gonzaga, Joãsinho Trinta, Teixeirinha, Madame Satã…), aos sábios das aldeias, à oratura comparada à literatura e à poesia do Slam (batida, em inglês), que surgiu no círculo operário dos Estados Unidos nos anos 80, contagiou a França no raiar do séc. XXI e, hoje, espalha-se nas periferias brasileiras. Nenhum desses marcos é aceito nos cânones da episteme, espremidos que foram no canto dos saberes inferiores (Cult, abril 2021).

Em nome da canonização da ciência e do conhecimento formal, invalidou-se os demais saberes produzidos. O negacionismo diante da pandemia e das medidas sanitárias reforçou, indiretamente, a autoridade da ciência ligada à infectologia e à epidemiologia. Nos EUA, Reino Unido, Hungria e Colômbia, os governantes que refutaram as recomendações no combate à moléstia pandêmica baixaram seus índices de aprovação e foram acusados de cúmplices das mortes. Não podemos incorrer no erro oposto, e absolutizar a ciência como único meio de saber. Indígenas e camponeses têm muito a ensinar-nos. “O confronto e o diálogo entre saberes permitem transformar práticas diferentemente ignorantes em práticas diferentemente sábias”. Donde não se deduz um relativismo do saber científico.

C) As chamadas “zonas liberadas”, por igual, instigam o avesso do que impera na ordem capitalista, colonialista e patriarcal. Ao se organizarem com princípios e regras opostas ao establishment, as zonas liberadas do jugo criam comunidades sustentadas pela participação dos membros. Não necessariamente vocacionadas para o confronto. Em muitas ocasiões, para uma existência paralela em territórios rurais ou urbanos com modalidade cooperativa e associativa. Conforme, aliás, pretendiam os socialistas utópicos do séc. XIX (Saint-Simon, Fourier, Owen), os quais ofereciam um projeto de felicidade para a humanidade saltando sobre a existência da luta de classes, no intuito do convencimento pelo simples exemplo.

É o caso das comunidades neozapatistas em Sierra Lacandona, no Sul do México, e das localidades autônomas do Curdistão sírio que adotam regramentos anarquistas, antiautoritários e feministas. O cristianismo primitivo, antes da hierarquização feita pelos bispos cardeais papas e santos, bem como os partidos de esquerda até os primórdios da institucionalização de núcleos de poder em torno dos mandatos parlamentares, prefiguravam em miniatura organizativa o futuro almejado. Coisa que no andar da carroça se perdeu em expressiva proporção.

– A transição de paradigma

Entre as alavancagens elencadas para a antecipação do futuro, as ruínas-semente parecem ser as mais auspiciosas por iluminarem o modus vivendi de contingentes que, num crescendo, obtêm reconhecimento universal por manterem: “A natureza como princípio vital que assegura a relação harmoniosa entre os ciclos vitais da vida humana e da vida não humana”. Em última instância, o aprendizado por excelência legado pelo “vírus pedagogo” na pandemia em curso.

Sem ambicionar um metabolismo social de retorno a priscas eras, para sanar as disfuncionalidades do atual modelo, as ruínas-semente denunciam a necropolítica estampada na propagação da Covid-19 e a perda da biodiversidade provocada pelo caos climático e ecológico. Não à toa, o modelo anticivilizacional recebe nas manifestações sociais, alto e bom som, o grito massivo de “Basta!” Brado que recolocou a necessidade de um Novo Fórum Social Mundial.

As outras emergências são igualmente importantes. As apropriações contra-hegemônicas contribuem para a fermentação da visão não-excludente sobre direitos e deveres da condição humana. Já as zonas liberadas têm caráter educativo e performativo. Contudo, não é razoável dar credibilidade ao novo acenando com o statu quo ante. A transição precisa envolver o campo epistêmico na crítica dialética das antigas regulações sociais políticas econômicas e culturais.

A transição paradigmática deve acontecer tendo como ponto de entrada as searas consensuais, embora não unânimes. Depois, as áreas problemáticas: “O racismo, o patriarcado, a negação dos saberes dos outros, o consumo personalizado de massas, a religião como instrumento de ação política autoritária, a justiça histórica, as redes sociais e o modo como combinam utopia e distopia, democratização e manipulação”.

Na teoria, entenda-se. Na prática, a ordem dos fatores não altera o produto. As circunstâncias ditam as prioridades, embaralhando o que é consensual e o que é problemático. Ganha corpo então a proposta de criação de uma Declaração Cosmopolita Insurgente para normatizar a transição a um sistema civilizacional ecossocialista. A Declaração Cosmopolita serviria para operar onde a esperança modera o medo; a transição, onde o medo modera a esperança.

– Um intelectual de retaguarda

Os que lutamos pela democratização da democracia, a politização da política e justiça social e econômica “para sair do pântano da normalidade que condenou a maioria da população ao inferno da exclusão, da fome, da morte evitável (Paulo Gustavo, presente!), da violência, da guerra, da expropriação e do ar irrespirável… temos uma oportunidade que dificilmente se repetirá nas próximas décadas”.

O vírus invisível tornou mais visíveis as mazelas do capitalismo neoliberal, em que faixas do capital acumularam riquezas ilimitadas durante o pandemônio, como a Amazon (EUA), a Alibaba (China) e a Mercado Livre (Argentina). As principais corporações empresariais interessadas em amealhar o mercado de Delivery com a privatização açodada dos Correios, responsáveis pela integração do território continental e pela superação das diferenças regionais, qual um braço logístico do Estado em todos os municípios brasileiros há 358 anos.

As vacinas, além de se revelarem o melhor negócio da contemporaneidade, converteram-se em motivo de disputa geopolítica entre as potências ocidentais e não-ocidentais (chinesas, russas e outras), ressuscitando a guerra fria morta em 9 de novembro de 1989, com a queda do “já foi tarde” Muro de Berlim.

Alguns países, com efeito, evitaram participar da neoguerra fria. A Bolívia e o Brasil, para se ter uma ideia, protagonizaram políticas de Estado abertamente genocidas. Mostraram: “Uma dimensão macabra do extermínio de populações indesejáveis ou descartáveis”. Não adquiriram as vacinas oferecidas pelos laboratórios ao longo de quase o transcurso inteiro de 2020, quando ainda estavam sendo fabricadas. Puseram, criminosa e hediondamente, a economia em primeiro plano ao invés do cuidado com a saúde das pessoas. Uma tragédia anunciada.

O curioso é que os países que mais seguiram a ideia de defesa da economia são os que mergulharam na pior crise econômica com o decorrer da pandemia” – observou em tom de constatação na conclusão do belo livro, Boaventura de Sousa Santos. Autodenominado, com humildade não afetada: “Um intelectual de retaguarda e não de vanguarda”. Não creio que o mestre discordaria do arremate do texto: a transição de paradigmas começa com a confecção do programa e a preparação militante da campanha para a vitória de Lula da Silva nas eleições de 2022.

  • Luiz Marques é professor universitário, UFRGS
Foto Paulo Pinto/FotosPublicas

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