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O inimigo, o mensageiro e o pedagogo | Luiz Marques

“É preciso fazer alguma coisa, para lavar a vida degradada”.
Thiago de Mello

Boaventura de Sousa Santos, em livro recente (“O Futuro Começa Agora: da Pandemia à Utopia”, 2021), distingue três metáforas empregadas para se referir a Covid-19. São elas, “o vírus como inimigo, o vírus como mensageiro, o vírus como pedagogo”. A pandemia é a tragédia de nosso tempo, agravada pela conduta errática de governantes que não escutam o que o vírus tem a dizer sobre o modus vivendi em curso da humanidade. A doença pandêmica grava ensinamentos cifrados. Cabe-nos decifrar o significado. A consciência de irmandade planetária compensa o esforço para fazer compreensível a crise.

Pré-condições

O primeiro passo está em não fazer coro com a guerra comercial travada entre os Estados Unidos e a China. Espalhou-se que o Coronavírus teria origem no país asiático: permitiram a praga escapar do laboratório em Wuah (convicção trumpiana). Os EUA buscaram, assim, deslegitimar a liderança chinesa naquilo que foram ultrapassados – produção de celulares, telecomunicações de quinta geração, inteligência artificial, automóveis elétricos, energias renováveis. Os epítetos mútuos recendem a renhida disputa por mercados.

O segundo passo está em não difundir que o vírus é democrático. Não é, nunca foi. Em meados de 2020, manchetes já mostravam a seletividade do contágio. UOL: “Coronavírus, classe social passa a definir quem morre no país”, no caucasiano Bairro Morumbi em São Paulo morre-se sete vezes menos do que nas periferias. CNNBrasil:“Morrem 40% mais negros que brancos por Coronavírus no Brasil”, o trabalho informal e a própria localização geográfica dificultam o atendimento hospitalar em tempo adequado. BBC News: “Seis áreas da desigualdade racial no Brasil e nos EUA”, Coronavírus, analfabetismo, taxa de emprego e renda, assassinatos pela polícia, sub-representação nas esferas estatais, nenhum diretor negro recebeu Oscar na categoria. Quem são as “classes perigosas”?

O terceiro passo está em relativizar as certezas dos antigos lugares de fala. Ao globalizar a fragilidade da vida humana nos hemisférios Norte e Sul, embora com clivagem sobretudo étnica e social, a pandemia ofereceu-nos a oportunidade de pensar para além dos condicionamentos sócio-ideológicos. Se a economia foi globalizada e 1% aplaudiu, globalizemos também a sensibilidade e a empatia com o outro, para que 99% possam se regozijar. O que chamávamos “problemas” ganhou nova dimensão em face do oponente invisível, que obrigou-nos a dar provas efetivas de “amor ao próximo” com o uso de máscaras, a lavagem das mãos com álcool gel e o distanciamento social.

O inimigo

A metáfora como inimigo, usada e abusada pelos governos, faz recair sobre o Estado a responsabilidade maior sobre a propagação da doença. Desconsidera o fato de que o combate sempre envolveu “as famílias, as comunidades, as associações e os profissionais da saúde que não são simples funcionários públicos exercendo funções rotineiras”. Numa palavra, a sociedade civil. Ademais, uma guerra possui um desfecho. Mas, no caso, o fim não implicará a eliminação do patógeno, senão seu controle por meio das vacinas e anticorpos que produzirmos. Não haverá vitória com rendição incondicional.

O amanhã acena com singela trégua, olhe lá! Nas últimas vezes que se recorreu à imagem beligerante, a vaca foi pro brejo. Contra as drogas, viu-se uma derrota estrepitosa, confundindo usuários com traficantes, sem conter o tráfico em escala nacional. Contra a corrupção, viu-se a manipulação da mídia em prol das ilegalidades flagrantes (a jurisdição e a suspeição) da operação Lava Jato. Se a Rede Globo e satélites não pediram desculpas a Lula e à opinião pública, isso só prova a má-fé com que seguem atuando.

O mensageiro

A metáfora do mensageiro reporta o vírus como um embaixador da natureza. “A mensagem reside na presença do vírus. É uma mensagem performativa... que consiste na morte ou na ameaça de morte.” Faz acontecer por estar aí. Em uma guerra convencional, pouparia-se o infeliz arauto em circunstâncias adversas. Não é dele a culpa pelas más notícias.

Na pandemia, porém o deseja-se imitar o gesto de Cleópatra ao tomar ciência do casamento de Antônio com Otávia, filha de Otávio César: furar os olhos do mensageiro e matá-lo, como a um inimigo no campo de batalha. Tal “serviria para nos defender no presente, mas não para defender do futuro”. Se o vírus traz uma mensagem, é necessário decodificá-la para conhecer seu inteiro conteúdo, doa como doer. Justo o que nos recusamos.

O pedagogo

“Obviamente é um pedagogo cruel… Mas não é um ser irracional… A esse nível há que estabelecer uma tradução entre a linguagem humana e a linguagem viral.” O convívio incita a comunicação. Para Sousa Santos, os seres humanos e o vírus têm em comum serem uma co-criação da natureza. O vírus seria produto do modo como interferimos nos processos naturais. Na tradição eurocêntrica, interferimos em tudo o que se afigurava próximo da natureza, estendendo o afã da dominação “fossem aos escravos, às mulheres ou aos povos indígenas”. O mundo natural é fruto dessa brutal intervenção dominadora, que acompanhou a trajetória do capitalismo com a bênção da razão iluminista.

“O ser humano que é hoje infectado pelo vírus é o mesmo que durante séculos infectou e atentou contra a natureza.” Somente uma intersecção de saberes (“orais, anônimos, africanos, indianos, indígenas, camponeses, feministas, populares, etc.”) será capaz de forjar ferramentas apropriadas à intelecção do que, no momento, causa horror. Aprender com o vírus remete a uma incontornável autocrítica filogenética da evolução do Homo sapiens relativa aos parâmetros que culminaram no American way of life. Convertido no padrão capitalista por excelência. Ou viveremos ameaças ainda mais apocalípticas do que a atual. O rompimento reiterado da cadeia ecológica está cobrando a conta.

O caos verdeamarelista

No Brasil, a balbúrdia pandêmica deve-se à falta de vontade política e direcionamento centralizado contra a disseminação viral. Os conflitos dos governadores e prefeitos com o presidente genocida, vaidades e oportunismos de lado, são um legítimo reclame de proteção federativa. Nesse ambiente premeditadamente descoordenado por quem de direito, urge traduzir a linguagem fascista para a democrática. A linguagem do necropoder para a do ecopoder, conforme alerta a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Associações corporativas procuram furar a fila de prioridades recomendadas pelas autoridades competentes na distribuição de vacinas. O Congresso Nacional aprovou a flexibilização da compra por grupos empresariais, funcionários e familiares fora do Programa Nacional de Imunização (PNI). Isso, além de autorizar os sujeitos de direito privado a adquirirem imunizantes sem a aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Sob a cínica alegação de agilizar a vacinação em massa da população. O presidente da República sancionou (10/03/2021) a clara corrupção da ordem social.

Denunciar e compreender

Denunciar os métodos de mercado que evidenciaram desrespeito ao valor igualitário e universal da vida humana, assegurado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e pela Constituição em vigor. Com critérios mercantis, os congressistas e o mandatário-mor distinguiram gente de sub-gente, humanos de sub-humanos, ponderando os recursos financeiros, o status e o prestígio das personas para acessarem a vacinação.

Sem aceitar as premissas, compreender que tais métodos eram (e são) a ponta do iceberg da etapa neoliberal do capitalismo. Modelo que refutou os princípios de cidadania e os direitos humanos, transformando a vida dos indivíduos em uma mercadoria como as outras, com a subjetividade eclipsada pelo moderno mito da caverna (o shopping center), romanceado por José Saramago. Fenômeno que a filosofia marxista definiu como reificação (objetificação), por converter as coisas em pessoas e as pessoas em coisas.

A canção de rebeldia

“O problema de fundo é a captura do bem público da saúde e sua submissão à lógica da economia da saúde.”, resume Sousa Santos. A privatização das inovações científicas, que têm caráter coletivo, e a produção farmacológica, que tem foro privado, põem no liquidificador um “direito” que, metamorfoseado, vira “serviço” aos que podem pagar. Na contramão, desde maio de 2020, os Médicos Sem Fronteiras apelam que se quebre as patentes vacinais das Big Pharma e cesse a exploração comercial dos imunizantes. Sem o que, a globalização do genocídio nos países pobres será um crime anunciado.

O Coronavírus acarretou uma chance histórica de questionamento da indústria farmacêutica e dos monopólios gerados por lucros astronômicos. Os quais possibilitam controlar os medicamentos a serem confeccionados apenas para atender os privilegiados membros das classes abastadas. Retirando dos cidadãos de segunda classe o direito de respirar.

Esse questionamento quiçá desperte no país uma dinâmica de discussões democráticas e participação popular, com Conselhos Regionais que fluam para um grande Conselho Nacional. O otimismo do desejo deve suplantar o pessimismo da mente. Que a crítica política faça seu trabalho de toupeira para cavar novos túneis poético-utópicos de igualdade. “Peço licença para terminar / soletrando a canção de rebeldia” (Thiago de Mello).

  • Luiz Marques é Professor universitário, ex-secretário estadual de Cultura do Rio Grande do Sul.

Foto: Silvio Avila/HCPA

Publicação original: www.sul21.com.br/opiniaopublica/2021/04/o-inimigo-o-mensageiro-e-o-pedagogo-por-luiz-marques/

 

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