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Os evangélicos norte-americanos e a política (I) | Regis Moraes

Ela vem de longe. Mas uma semente nova foi plantada lá nos anos 1930. E daí uma flor estranha vingou em solo norte-americano, para depois se espalhar pelo mundo. Atravessou por várias fases e reencarnou diversas vezes. Nas últimas décadas do século assumiu uma feição nova e vibrante – gerando um ramo geneticamente modificado do protestantismo, um evangelismo militante, efusivo e extremado em todas as dimensões – além da teológica e da moral. Assim, graças a essa expansão de efeitos, ela veio a constituir a nova direita religiosa, de inspiração neopentecostal, quase sempre, mas nem sempre, alojada no Partido Republicano.

Quando utilizamos a metáfora da flor pode parecer que nos referimos a alguma coisa biológica, orgânica, natural. E assim é, pelo menos em parte. Ela se enraíza e se nutre de um solo rico, fértil em nutrientes. Mas é também o produto, talvez inesperado e complexo, de um conjunto de iniciativas bem pensadas. Um artefato, um engenho.

Pensado em ampla perspectiva, e utilizando ainda a metáfora da planta, o movimento tem a ver com um terreno socioeconômico que se constituiu depois da Segunda Guerra mundial. Decisões do governo federal norte-americano e de grandes corporações remodelaram o país, inaugurando uma nova marcha para o oeste, semi-virgem, e para o sul, nada virgem, mas revigorado pela energia de novos varões da economia e da guerra. Sim, da guerra, porque o complexo industrial militar instalava postos avançados de pesquisa e produção de armas no Texas, no Arizona, na Flórida e no velho sul – o Sunbelt acolhia o GunBelt. E o Bible Belt. O mapa a seguir indica esse movimento. Quem tiver curiosidade na nova geografia das armas, há um excelente guia: The Rise of the Gunbelt: The Military Remapping of Industrial America , de Ann Markusen, Peter Hall, Scott Campbell e Sabina Deitrick  (Oxford University Press;1991).

O país sofria outra transformação, diferente daquela do século XIX. Não se trata mais da migração do campo para a cidade. Mas do núcleo urbano central para o subúrbio. Repare, no gráfico a seguir, a expansão depois da Segunda Guerra.

Adaptado de Salmon, Frédéric – Atlas Historique des États-Unis de 1783 à nos jours, ed. Armand Colin, Paris, 2008, p. 39.

Capitais, máquinas e dinheiro viajavam da costa leste e do meio-oeste para essas novas plagas. E com elas seguiam as gentes.  Protestantes tradicionais e moderados de Ohio e Illinois se deslocavam para Orange County, Califórnia, Seattle, Colorado Springs ou Austin. Saíam de centros urbanos antigos, estabelecendo-se em subúrbios ajardinados, construídos graças a um monumental programa estatal de financiamento de hipotecas e a outro não menos monumental programa de estradas federais. Um outro livro conta essa estória e mostra a forma pela qual os “retirantes” se acomodavam às circunstâncias e criavam novas formas de socialização,  de cultura religiosa e política: Suburban Warriors – The Origins of the New American Right, de Lisa McGirr, Princeton University Press, 2001.

Muitas vezes, alguns analistas associavam a direita religiosa com um público pouco letrado e pobre, a figura do “atraso”, da tradição córnea. Não é uma imagem precisa. A religião extremada – inclusive a mais fundamentalista – é acolhida por um grupo de pessoas crescentemente suburbanas, educadas, modernas, encravadas na indústria high-tech e na cultura da abundância e do supérfluo. Essa combinação de religião dos “velhos tempos” com a tecnologia moderna, do conservadorismo moral com o consumismo da última moda indicam, de certo modo, um fruto da ascensão social e do cataclismo programado.

Nos anos 1950, o país do automóvel ganhava novas pistas e inventava novos hábitos de trabalho, moradia, novos sentimentos e… uma nova visão de mundo. Era da abundância, dos “anos dourados”.

Assim, como dissemos, aos traços orgânicos e “naturais” se somam  componentes intencionais – como esses programas federais de rodovias e residências e, ainda mais, de investimentos do chamado complexo industrial-militar (e acadêmico).

Margaret O’Mara conta essa estória em  Cities of Knowledge: Cold War Science and the Search for the Next Silicon Valley (Princeton University Press. 2015). Ali se mostra, por exemplo, como o Pentágono estimulava as empresas a descentralizar suas plantas, com a paranoia de um eventual ataque estrangeiro (ou alienígena?).

Kevin M. Kruse, por outro lado, conta como empreendedores de toda natureza responderiam a essa demanda nascente [em One Nation Under God: How Corporate America Invented Christian America, Basic Books; 2016]. E mostra como, em certa medida, a dirigiam e conformavam. Os magnatas que projetavam uma religiosidade pró-mercado eram mais do que “respostas” à demanda. Eram semeadores. Desenvolveremos essa estória mais adiante.

Voltemos por enquanto ao deslocamento e suas consequências.

Darren Dochuk conta que entre o final dos anos 1930 e o final dos anos 1960, mais de seis milhões de sulistas de cidades pequenas se deslocaram para centros industriais. Não apenas para Detroit, no Manufacture Belt do meio-oeste, mas também para cidades como Los Angeles. Em 1970, cerca de 11 milhões de sulistas viviam fora de seus estados natais [From Bible Belt to Sunbelt: Plain-Folk Religion, Grassroots Politics, and the Rise of Evangelical Conservatism, ed. W. W. Norton, 2010]. Focalizando o exemplo crucial da Califórnia, o autor descreve os desdobramentos dessa mudança demográfica no terreno das igrejas.

Os protestantes moderados, desenraizados, assim que instalados na nova fronteira, buscaram novos vínculos. E novas igrejas. Elas surgem ali onde são demandadas. Com outro perfil. O protestantismo sóbrio e cultivado dos metodistas do leste, por exemplo, dá lugar à proliferação de Assembleias de Deus, de núcleos de Batistas do Sul reformados, de uma enorme variedade de pequenos templos e mega-churches, organizadas quase como um sistema de franquias – franquia espiritual e material, como empreendimentos independentes e associados. Esse novo despertar é mais emotivo e militante, proselitista, animado pelo episódio bíblico de Pentecostes, em que os crentes se embebem do espírito santo, exaltam-se e falam em idiomas que não conhecem. A embriaguez espiritual se traduz, rapidamente, em disposições ideológicas igualmente extremadas, voltadas para exorcizar os grandes demônios que ameaçam a pátria e a civilização: feminismo, comunismo, homossexualismo, a ciência ateia, aquela que não apenas ignora mas contesta a verdade literal da Bíblia. Um emblema dessa transfiguração – da passagem da fé para a política – poderia ser visto na primeira marcha dos crentes, o Washington for Jesus, de 1980. Eles enviam um recado forte: além de salvar nossas almas e purgar nossos pecados como indivíduos, queremos tomar a praça e purgar os pecados nacionais.

Esse movimento de longa duração, arquitetado e orgânico ao mesmo tempo, vai criando as bases para sua expressão politica (e eleitoral), a nova direita religiosa que nas últimas décadas do século XX pautou facções no congresso e no judiciário. Além, claro, de constituir componente fundamental de presidentes das mais variadas colorações morais – do piedoso Carter ao escroque Nixon. Do canastrão Reagan ao drogadito Bush. E, para concluir, deu sua enorme contribuição à vitória de um gerente de bordel travestido de mito salvador, o fabuloso agente laranja Donald.

Contaremos nas próximas semanas um pouco mais dessa estória, a saga da direita religiosa norte-americana. Não é pesquisa original, é um resumo comentado de uma vasta literatura, de dezenas de livros dedicados ao tema. Quanto comecei a rabiscar estas notas me dei conta de que havia reunido uma centena de títulos –li uns vinte, passei por outros vinte. Ainda há dezenas na minha estante (ou no meu cartão de memória). E a cada dia novas interpretações surgem.

A estória que se conta aqui é deles, os de lá de cima do globo. Mas é muito sugestiva do que ocorre em outras plagas. É útil para compreender um pouco da história recente dos Estados Unidos. Mas, também, para entender como ela se expande para outros países. E como se transfigura quando neles se instala. 

Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes é professor aposentado, colaborador na pós-graduação em Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. É também coordenador de Difusão do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-Ineu). Seus livros mais recentes são: “O Peso do Estado na Pátria do Mercado – Estados Unidos como país em desenvolvimento” (2014) e “Educação Superior nos Estados Unidos – História e Estrutura” (2015), ambos pela Editora da Unesp.

Publicação original: Jornal da Unicamp : https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/reginaldo-correa-de-moraes/os-evangelicos-norte-americanos-e-politica-i

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