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Pasolini denunciou o capitalismo consumista | Leneide Duarte-Plon

No centenário de nascimento, cineasta e poeta italiano recebeu retrospectiva em Paris. Era intransigente em política e detestava a corrupção e o oportunismo.

O mais belo filme sobre Jesus de Nazaré foi realizado por um cineasta ateu… e marxista.

Este ano, centenário do nascimento de Pier Paolo Pasolini, alguns cinemas de arte de Paris organizaram uma retrospectiva de sua obra para deleite dos pasolinianos. Leitor de Antonio Gramsci – poeta e teórico do marxismo, morto nas prisões do fascismo – a quem dedicou o livro de poemas “As cinzas de Gamsci”, Pasolini descobriu no Evangelho de Mateus um Jesus revolucionário e contestador da ordem estabelecida, o oposto daquele que muitas igrejas apresentam.

A cena em que Jesus expulsa os mercadores do templo deveria se repetir hoje em muitas igrejas. O profeta de Nazaré diz, citando o Antigo Testamento: “Está escrito, ‘a minha casa será chamada casa de oração’ mas vocês a transformaram em um covil de ladrões”. No filme, que revi este mês pela terceira vez, Jesus diz em italiano: “una spelunca di ladri”. Difícil como brasileira não pensar nas espeluncas de salteadores que pululam no Brasil.

O Jesus do filme “O Evangelho segundo Mateus”, de 1964, é um líder revolucionário, precursor do Jesus Cristo libertador dos teólogos da Libertação. Sem acrescentar uma vírgula ao texto original de Mateus, Pasolini reconciliou nessa obra-prima o cristianismo e o marxismo e fez um dos mais belos filmes do cinema italiano. É, sem dúvida, a mais despojada e fiel adaptação do Evangelho, com atores não-profissionais a começar pelo personagem principal, o estudante espanhol e simpatizante comunista Enrique Irazoqui. Esta escolha de não-profissionais, tipicamente neorrealista, levou Pasolini a buscar escritores ou filósofos do seu círculo de amigos para encarnar discípulos, camponeses e operários. O filósofo Giorgio Agamben é Felipe, um dos doze e Susanna Pasolini, mãe do cineasta, é a virgem Maria idosa.

Dedicado ao papa João XXIII, que promoveu o aggiornamento da igreja católica com o Concílio Vaticano II, o filme do poeta-cineasta tem como trilha sonora “A paixão segundo Mateus”, de Bach, além do spiritual  “Sometimes I feel like a motherless child”. Apesar de ter chocado muitos católicos tradicionalistas, “O Evangelho segundo Mateus” ganhou o prêmio do Office Catholique International du Cinéma. O jornal da Santa Sé, Osservatore Romano escreveu em 2014: “A humanidade febril e primitiva que o cineasta leva à tela acaba dando um vigor novo à palavra cristã, que nesse contexto aparece ainda mais atual, concreta e revolucionária”.

No Festival de Veneza, o filme recebeu o prêmio especial do Juri e o prêmio da União Internacional da Crítica.

“O Evangelho Segundo Mateus” constrói a curta vida de um profeta revolucionário, detestado pelo stablishment judaico de Jerusalém, os sacerdotes do templo que decidem sua morte. Paulo de Tarso, o apóstolo dos gentios, também fascinou Pasolini que escreveu um vigoroso roteiro sobre o santo dos cristãos, transpondo-o para o século XX. “O cineasta estava convicto de que a questão do cristianismo cruzava com a do comunismo, a da santidade com a do militante”, escreve o filósofo Alain Badiou em seu “Saint Paul – La fondation de l’universalisme” (Presses Universitaires de France, 1997).

 

Estamos todos em perigo

Em avanço sobre sua época, Pier Paolo Pasolini, morto de forma violenta em 1° de novembro de 1975 na praia de Ostia, perto de Roma, deu sua última entrevista na véspera de morrer ao jornalista Furio Colombo, do jornal “La Stampa”. O poeta, romancista, escritor e cineasta constatava: “Estamos todos em perigo”.

Um dos maiores artistas do século XX, o intelectual marxista engajado era detestado pela sociedade burguesa. Sua morte foi, para muitos analistas, o resultado de um complô mafioso ou político para calar o incômodo crítico da política italiana, sobretudo na coluna “Escritos corsários”, publicada no “Corriere della Sera”, nos dois últimos anos de vida. A Democracia Cristã, severamente criticada por Pasolini por alimentar o clima de tensão da Itália dos “anos de chumbo”, viu, três anos depois, seu líder Aldo Moro ser sequestrado e morto pelas Brigadas Vermelhas.

O intelectual era a consciência crítica de uma sociedade italiana profundamente dividida politicamente. O poeta apaixonado pelo Cristo dos pobres foi lembrado em 2015, num encontro de intelectuais e artistas em Paris, no Théâtre du Rond-Point, no dia exato dos 40 anos de sua morte.

O artista plástico Ernest Pignon-Ernest, comunista como o italiano, foi o organizador da cerimônia. Pignon-Ernest é o autor de um magnífico retrato do artista como uma Pietà. Ele afirmou que a representação do inferno para Pasolini poderia ser o capitalismo consumista desumanizante e destruidor de laços de fraternidade, que ele pressentiu e denunciou.

Biógrafo e tradutor de Pasolini, René de Ceccatty ressaltou em um artigo que o intelectual era intransigente em política e detestava a corrupção e o oportunismo. Ceccatty levanta a hipótese de sua morte ter sido uma resposta dos serviços secretos italianos a um artista que chocava e incomodava, como os profetas do Antigo Testamento perturbavam os poderosos com uma pregação radical.

Ceccatty lembra que Pasolini escreveu um romance, “Petróleo”, publicado depois de sua morte, no qual conta a corrupção na ENI, a empresa de petróleo estatal da Itália. Em 1962, o presidente da ENI Enrico Mattei tinha morrido num misterioso acidente de avião provocado, provavelmente, por ter quebrado o monopólio das Sete Irmãs, as companhias de petróleo multinacionais que davam as cartas no Oriente Médio.

O assassinato de Pasolini permanece até hoje um mistério. Seus inimigos preferiram acatar (ou fabricar?) a tese de crime sexual, atribuindo sua morte a um encontro sexual que teria degenerado em violência e assassinato. Pasolini tinha apenas 53 anos e acabara de fazer o filme “Saló ou os 120 dias de Sodoma”, baseado em texto do Marquês de Sade. Ao ver-se sozinho em seu carro num suposto encontro homossexual foi espancado até morrer. O seu próprio carro foi usado para passar por cima do corpo.

 

Sociedade doente que mata seus poetas

O cineasta incomodava pela lucidez e coragem de pôr o dedo na ferida de uma sociedade italiana hipócrita e corrupta. Ele denunciou a corrupção da Democracia cristã, descreveu a ascensão vertiginosa do neocapitalismo triunfante que vemos hoje em dia vitorioso no Ocidente; previu a ascensão de um tipo de político ligado a negócios milionários, como Berlusconi. E foi um dos primeiros a denunciar a uniformização, e consequente destruição, das culturas nacionais e locais no processo que hoje chamamos de mundialização.

No enterro, seu grande amigo, o escritor Alberto Moravia, sugeriu um crime político: “Uma sociedade que mata seus poetas, é uma sociedade doente”.

Seu último filme, “Saló ou os 120 dias de Sodoma”, só foi lançado depois de sua morte. O filme provocou a ira dos espectadores ao pôr em cena cruamente histórias do Marquês de Sade adaptadas ao contexto da República fascista de Saló, controlada pelos nazistas. Nela, fascistas sequestram 16 jovens e os aprisionam numa mansão onde são usados como fonte de prazer e sadismo. Considerado o artista mais escandaloso da Itália do pós-guerra, Pasolini teve de responder a mais de 20 processos.

Apontado como autor da morte do cineasta, Giuseppe Pelosi foi condenado em 1976 a nove anos de prisão, mas muitas dúvidas a respeito da autoria única do assassinato permanecem. Uma das hipóteses é que o crime teria motivações políticas e fora obra de membros do movimento neofascista italiano.

Numa entrevista à televisão italiana em 2005, Pelosi afirmou que fora coagido a confessar.

 

 Via Fórum 21

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