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O Festival Nacional de Cultura e Juventude Negra

2146446MANIFESTO

Tudo nosso, nada deles. Nossa cultura, nossa identidade.

 

Convocamos toda a juventude negra ao maior festival de cultura, afirmação e juventude do Brasil. Diversas organizações, pessoas e grupos convocam para a festa e para luta. O Festival Nacional de Cultura e Juventude  Negra será um espaço aglutinador e potencializador das novas expectativas da juventude que mais produz arte e cultura em nosso país.

As novas tecnologias da informação vêm nos proporcionando outros paradigmas de circulação e distribuição de nossos bens simbólicos. No entanto, cada dia mais, precisamos nos encontrar, nos tocar, nos olhar, nos abraçar e dizer que estamos juntas e juntos.

A afirmação da cultura negra passa por um momento positivo. Nunca se viu tanto cabelo para cima, tanto turbante de rainha nas fotos das redes sociais. O desafio agora é: direcionar este empoderamento que se consolida gradualmente nas subjetividades e individualidades das novas gerações negras, para uma ação política emancipadora, revolucionária.

Ora se foi pelo fenótipo que se constituiu o maior crime da história contra o povo, não nos espanta que seja por ele que indiquemos que outros tempos estão por vir.

A cultura é um arcabouço complexo que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a ética, os costumes e todos os hábitos adquiridos pelo homem e pela mulher viventes em sociedade. A cultura é o conjunto de características construídas em determinado espaço-tempo por sujeitos sociais.

O Brasil é um país com dimensões surpreendentes. A cultura brasileira é muito diversa e rica. É fundamental identificar a dimensão geográfica, política, religiosa do Brasil em sua pluralidade e polissemia.

Precisamos perceber também o novo momento popular de apropriação da identidade negra e da afirmação do nosso povo. Esse estágio se deu a partir da luta do movimento negro e da organização de diversos movimentos sociais reivindicando, lutando, morrendo e construindo.

Nos anos 40 criou-se no Brasil uma experiência chamada “Teatro Experimental do negro” com arte, teatro, música e outras interações combatia-se o racismo. Nos anos 70 o surgimento do Ilê Aiyê no Carnaval da Bahia representa outra marca significativa de protesto contra o racismo dentro da maior festa brasileira.Mais recentemente, o bando de teatro Olodum tem feito um trabalho reconhecido e repercutido nacionalmente. As expressões culturais e formatos são variadíssimas.

A contribuição negra tem granderelevância na matriz cultural brasileira. O reconhecimento e afirmação desta matrizpela população de modo geral é um fenômeno recente, conquistado sobretudo a partir da institucionalização das políticas de reparação racial. O samba de gafieira, o jongo, a capoeira, as escolas de samba, o samba de roda, o coco de Pernambuco – embora tenham nascidos no âmago da população negra e mantidos por ela, sempre estiveram às margens dos paradigmas estéticos vigentes na indústria cultural brasileira.

O samba-reggae, o grafite, o rap, o pagode baiano, carioca e paulista são representações contemporâneas da cultura popular negra que muito sangue e suor deram e dão para se estabelecerem no imaginário e memória de nosso povo.

A linguagem brasileira é uma forte marca de nossa diferente expressão cultural. A povo brasileio cria jargões que associam o bom humor ao momento de autoafirmação que vivemos. Essas iniciativas geram expressões fortíssimas, que subvertem a lógica cooptadora das grandes produtoras como um nó triplo em pingo de éter.

Parte enorme da população negra tem utilizado o“Tudo nosso, nada deles”, como força da expressão de uma revolta que nunca esteve adormecida e está à beira de seu espetáculo.Essa expressão é definitiva em si, sendo ampla em significados.Temos que nos apropriar de tudo que está disponível. O Brasil foi construído por mãos negras. Construímos um país de riquezas. O chamamento: “Tudo nosso, nada deles” reivindica reparação. Outrora, era nada para nós e tudo para eles. O que o povo quer dizer é que chegou a hora de tomarmos para nós tudo que nos foi alijado.

A nossa cultura é reflexo de uma identidade diversa. Nesse sentido, devemos desconstruir o machismo e a homofobia e todas as formas de opressão correlatas ao racismo. A contra-hegemonia será construída em espaços formais, mas também em espaço de entretenimento, que também são políticos. Afinal, o lúdico e o transcendental é e sempre foi para nós, negras e negros, um assunto muito sério. Lugar através do qual sobrevivemos, nos reinventamos, preservamos sagrada a nossa ancestralidade.

Vamos apresentar um formato novo, um cuidado novo e novas interações. O Festival é o momento altivo e raro de nos vermos, sentirmos e agirmos. Que se abram as cortinas!

Assinam:  ACBANTU, MNU, UNEGRO, ENEGRECER, CEN, CMA HIP HOP, CONEN, LEVANTE POPULAR

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