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Tristes paisagens | Dr. Rosinha

“Antes mesmo de começar a escrever minhas
palavras se transformam em lágrimas.”

Carta publicada por Pamela Silva,
esposa do guarda municipal Marcelo Arruda,
assassinado em Foz do Iguaçu.

 

Da janela do vigésimo segundo andar, através do vidro, vejo silêncio. A manhã brilha como a paz.

Daqui de cima tudo está normal: sol, silêncio, vento leve… Nenhuma palavra voa. Se há gritos, o vento os tocam para longe e se perdem antes de aqui chegarem.

De pé na janela repouso da algaravia, do cansaço e da alegria de ontem. Observo o “normal”. Na memória ressoa a frase, de Valter Hugo Mãe – É urgente viver encantado –, slogan da Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

No silêncio reavivo a emoção de ter visto, no dia anterior, uma multidão visitando a Feira. Homens e mulheres de muitas idades. Crianças vivendo encantadas as histórias contadas em livros ou representadas em tablados da Bienal.

Desavisado abro – não a janela – o WhatsApp e explode diante de mim o mundo na sua violência. Mataram muitos e entre estes muitos, Marcelo Arruda. Assassinaram-no no dia que completava seus 50 anos. Razão do assassinato: ser de esquerda, pensar diferente de quem governa o Brasil.

O silêncio que vivia foi interrompido num turbilhão de pensamentos desorganizados e a pergunta: o que fazer além de xingar e chorar?

Chocado, calado, envolto em tristeza e indignação desço para o térreo e saio à rua. Não preciso dar muitos passos e já vislumbro uma triste e desoladora paisagem.

Na frente do hotel uma mulher em roupas sujas e malcheirosas para e lamenta em tom alto – com todos e ao mesmo tempo com ninguém – do padecimento que sofre e se queixa, naquele momento não da fome, do abandono e do maltrato das ruas, mas do preconceito de que é vítima: ser velha.

Olho-a. O rosto dela, cansado e rugoso, desenha a idade – que não deve ter – de quem sofre as vivencias e as violências da rua.

Saio caminhando e observo que a paisagem é cada vez mais desoladora: nos beirais dos prédios, debaixo das marquises há corpos estendidos, sentados, de pé e encostados nas paredes ou lentamente caminhando – ninguém tem pressa, mas pressa para quê?

No geral portam sacolas plásticas com seus objetos pessoais e cobertores sujos, encardidos e alguns já rasgados. São homens e mulheres que vagam, lentamente gesticulam, falam sozinhos: além do padre Júlio Lancellotti, com quem mais podem falar e ser ouvidos?

Nas calçadas várias barracas – distribuídas pela administração municipal de São Paulo – montadas, algumas fechadas outras abertas com gente dormindo com os pés de fora. Neste horário e com este clima pode – cerca de 10 horas da manhã de um domingo ensolarado – dormir com os pés para fora.

Debaixo dos viadutos casas improvisadas, varais de roupas penduradas e muitos corpos: lixo do capitalismo. São corpos que podem ser reciclados para novamente serem explorados para novos lucros.

Sai do sufocante sopro de ódio, violência e morte emitido via WhatsApp para ver a morte caminhando lentamente pelas ruas de São Paulo.

Não importa onde esteja, na rua, bares, restaurantes, hospitais, em casa ou em salão de festa, sempre terá um executor por perto para realizar o que manda o ocupante do Planalto Central. Foi assim em Foz do Iguaçu.

É urgente derrotar o fascismo. É urgente impedir novas Marielles, Andersons, Brunos, Dons, Marcelos….

 

Dr. Rosinha é médico aposentado e ex-deputado.

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