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Auto-afirmação pela visão de mundo africana

Manifestações culturais deveriam pautar o projeto político do povo negro

Jorge Carneiro

A intolerância entre povos diferentes, resultado da dificuldade em aceitar o outro com seus costumes e história, sempre fez parte da história humana. Porém, esta intolerância torna-se insustentável ao ser reconhecida como racismo, que surge no mundo como uma forma de garantir dominação política, social, econômica e cultural de um agrupamento étnico sobre o outro.

 

No caso da população negra, o racismo surge e ganha força no período mercantilista que, com o aval da Igreja, transforma a escravidão e o tráfico negreiro em simples conseqüência do contexto colonial. O argumento de muitos em afirmar que o racismo é uma derivação automática do capitalismo leva a compreensões equivocadas, fruto da militância política de esquerda eurocêntrica, que usa este artifício para direcionar o movimento negro na construção de um programa insuficiente e incapaz de dar conta de toda a complexidade que é pensar o Brasil no século XXI.

 

É sabido que a população negra não vive em um universo paralelo, isolada da realidade nacional, mas está junto da população excluída, vulnerável para sofrer os impactos de um sistema cujas relações econômicas atingem a todos no país e no mundo. A reação do movimento negro, de muitas vezes levar em conta somente os problemas gerados pelo racismo – como se a própria fronteira entre racismo e capitalismo fosse algo bem definido, e não sinuoso e entrelaçado por outras problemáticas – conduz o movimento a um caminho isolado, cuja direção está longe de ser o fim de todas as formas de opressão e a própria construção da igualdade entre homens e mulheres, negros e brancos no mundo.

 

O movimento negro está hoje preso ao círculo vicioso das políticas integracionistas. Uma mostra disso é o fato de que muitos daqueles que eram potencializadores dos movimentos populares e de toda uma luta social de massa no Brasil, hoje parecem se afastar e, em alguns casos, abdicar desse papel.

 

Roda de samba

A alternativa política a esta lógica, para nós, deve se expressar nas tradições e culturas de nosso povo, que nas suas origens africanas, cultua a democracia, o respeito à diferença e a solidariedade entre gerações, gênero, orientação sexual e de classe. A título de exemplo, nas cerimônias populares de matriz africana, todas as pessoas são chamadas a dançar, como se fosse um momento sagrado. Isso acontece mesmo que algumas delas não saibam mexer o corpo ou seduzir o grupo.

 

Além disso, o elemento principal da dança de roda negra, ao contrário do culto a personalidades de muitas organizações e partidos políticos, não é a demonstração das habilidades de cada um, da capacidade de dançar. É a confraternização do grupo, a criação da harmonia comunitária através da linguagem corporal, pois o corpo é um dos centros sagrados do mundo.

 

Assim, o que poderia diferenciar métodos de esquerda pautados nas culturas negras, seria a necessidade de envolvimento total do ser na construção da coletividade. Cada um tem o seu papel, mas na hora da dança todos serão capazes de conduzi-la, pois como sabemos, toda dança, assim como a conquista efetiva dos direitos, implica em participação integral dos sujeitos. A magnitude desse momento, não acompanhamos apenas com os olhos, mas com os movimentos do nosso próprio corpo. A dança enfim, tem o grande poder de mobilização dos corpos e das consciências.

 

Princípios ancestrais

No samba de roda a realização de cada um é a realização do grupo, em função da alegria coletiva. É na realização pessoal de cada um dentro do grupo, que toda a roda toma parte do bailado. Assim, diferenciando-se das estruturas da esquerda e do movimento negro integracionista e de seus discursos, o samba de roda se caracteriza como recurso pedagógico, meio permanente de iniciação à sabedoria da sociabilidade do grupo e rememorando nossa ancestralidade.

 

A construção de um projeto político do povo negro deve ser norteada pelos princípios ancestrais expressos pelo samba de roda e outras manifestações culturais que expressam esses valores. É fundamental que todos e todas sejam sujeitos capazes, ainda que diferentes, de construir a harmonia comunitária, o socialismo democrático.

 

Por meio das nossas manifestações culturais reivindicamos nossa autonomia, nossa história milenar, mas também construiremos a aliança com outros oprimidos, na perspectiva revolucionária e internacionalista. Essa é a perspectiva que queremos, que é inspirada na figura de Exu que, para nós, representa a negação da negação. Exú nega os preconceituosos que negam o direito às diferenças; e as instituições que negam o direito à liberdade de expressão e pensamento. Ele nega a sociedade onde o homem é inimigo do homem. Ele é rigoroso e duro sem jamais perder a sua ternura. E a população negra tem muito a ensinar sobre isso.
Jorge Carneiro é economista e militante do Movimento Negro Unificado

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