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É preciso que o novo não abra caminho para o atraso

É preciso que o novo não abra caminho para o atrasoO assunto da semana na imprensa se voltou para São Paulo. Se é verdade que existia um alto desconhecimento do candidato do PT de São Paulo, Fernando Haddad, certamente nos últimos dias saiu da invisibilidade. Sua exposição ao lado do ex-presidente Lula e de Maluf foi exacerbada e explorada por óbvio pelos veículos de comunicação anti-petistas.

A visita de Lula e Haddad a casa de Paulo Maluf foi um verdadeiro banho de água fria na militância de visualizar uma candidatura crítica aos rumos tomados pela cidade e com uma coloração mais vermelha e de esquerda. Muitos militantes petistas e simpatizantes estão descontentes com os rumos tomados nos últimos anos na disputa municipal pelo PT, que desde de 2004 é marcada por derrotas e erros na condução das campanhas majoritárias na cidade. De lá para cá, assistimos a um PT frágil, com uma representação na Câmara Municipal incapaz de fazer uma oposição consistente e com pautas muito localizadas a demandas pontuais em bairros de periferia e sem projeto para São Paulo.

A candidatura Haddad continua vista como um respiro, abertura de um novo período, de abandono de vícios e construção de um novo diálogo com setores da cidade que se afastaram do PT e com muitos que, pela primeira vez, podem se aproximar do PT. Aliás, as últimas eleições demonstraram que a possibilidade de vitória do PT está relacionada a sua capacidade de manutenção dos votos na periferia (eleitorado de menor renda e escolaridade) e ampliação de sua votação nos setores médios (maior renda e escolaridade). Foi nesse sentido que Lula decidiu apoiar um de seus melhores ministros, que transformou profundamente a educação no Brasil.

Se é preciso reconhecer a inteligência de Lula nesta proposta, é também necessário questionar a incorporação do PP na aliança com o PT em SP. Aliás, não só em SP: o PP é claramente um partido de direita, e não esconde isso. Em SP, o agravante é que, além de direita, tem na sua trajetória um combate explícito à esquerda e ao PT. Nesse sentido, concordamos com a companheira Luiza Erundina e não achamos essa aliança compatível com nosso projeto. Considero essa aliança um erro, na sua forma e tempo político.

O PT conseguiu promover muitas mudanças no país, mas existem ainda inúmeras questões a ser enfrentadas, como a disputa no campo dos valores, no campo simbólico, que materializem políticas públicas promotoras da autonomia e de cidadania plena, com sujeitos mais críticos e participativos. Outro desafio importante é conseguir reaproximar os cidadãos, principalmente jovens, da vida democrática brasileira, recuperar a importância dos movimentos sociais e partidos políticos atacados durante o período neoliberal de FHC, resgatar a legitimidade das instituições e re-encantar as pessoas com a política.

Espera-se do PT mais do que a adequação ao sistema político vigente, inclusive com a compreensão que as alianças partidárias devem ser mais programáticas e à esquerda do que aquelas feitas a partir da situação de governo. Uma agenda ousada de luta pela reforma política – que não será feita pelo Congresso Nacional -, de democratização das comunicações, de enfrentamento às desigualdades econômicas e sociais e de radicalização da democracia, só será efetivada com enfrentamento às forças conservadoras e com forte vínculo com setores progressistas da sociedade.

Para tirar São Paulo do atraso e derrotar o projeto Serra/Kassab é preciso que o “novo” seja radicalmente NOVO, sem contemporizar com que há de (mais) atrasado.

* Gabriel Medina é psicólogo e militante do Partido dos Trabalhadores.

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