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O Dia Internacional das Mulheres e a disputa do Projeto de Brasil

O Dia Internacional das Mulheres e a disputa do Projeto de BrasilPor Clarissa Alves da Cunha *

O 8 de Março é uma data histórica de luta das mulheres no mundo inteiro. Representa toda mobilização das feministas contra o machismo e a construção de uma nova sociedade igualitária. A ocupação dos espaços de poder por aquelas que estão comprometidas com uma agenda de políticas públicas para as mulheres e que estejam em consonância com um projeto político transformador, é uma das formas de avanço da luta das mulheres. Nosso papel, portanto, é garantir que esta luta avance.

Em alguns aspectos parece ter sido absorvido por alguns setores da sociedade, em especial os partidos políticos de esquerda e movimentos sociais mistos, a necessidade de se incorporar algumas das pautas dos movimentos mulheres.  Sem dúvidas a vitória da primeira mulher presidenta do nosso país ajuda a evidenciar muitas dessas reivindicações e coloca uma perspectiva esperançosa da participação das mulheres nos espaços de decisão de nosso país. Essa vitória deu espaço para se evidenciar a importância das mulheres nos espaços de liderança e poder.

Podemos dizer que com a chegada de uma mulher no maior posto de poder da nossa sociedade o machismo diminuiu? Qual avaliação que deve ser feita na nossa sociedade para evidenciarmos o machismo existente? As mulheres nos postos de liderança colocam por fim o machismo? Acreditamos que seja necessária uma real disputa de valores na nossa sociedade para que realmente possamos viver numa sociedade libertária.

A transformação da vida das mulheres está ligada à transformação da sociedade em que vivemos e a transformação da sociedade que queremos também deve estar subordinada à transformação das nossas vidas. Para nós que defendemos um outro mundo, não existe uma transformação sem a outra.  Isso, na prática, quer dizer que avanços sociais, distribuição de renda, redução da pobreza afetam as vidas das mulheres e se colocam nos rumos das mudanças que queremos! Mas ainda assim é necessário entendermos que o patriarcado e o machismo ainda precisam de muitas ferramentas para ser destruídos.

O centro do debate durante a maior parte do segundo turno das ultimas eleições presidenciais, apesar de todos os avanços econômicos e sociais que ocorreram no governo Lula, se deu através de uma pauta que não tinha relação direta com esses fatores, a pauta do aborto.  A direita neoliberal no Brasil abriu mão nas últimas eleições da disputa sobre a concepção de modelo de Estado e não atacou as politicas sociais do governo Lula. Ao contrário, defendeu um salário mínimo de 600 reais, prometeu manter e expandir o Bolsa Família e não mexer em políticas consolidadas pelo governo Lula.  Isso é resultado de uma vitória política do projeto de esquerda desenvolvido durante os oito anos de governo Lula. No entanto, essa mesma direita explorou o tema do aborto e conseguiu seu maior crescimento político no pleito a partir do momento que exploraram da forma mais intensa e conservadora  em uma campanha eleitoral à presidência.

Pouco importa se o tema do aborto foi o principal fator que fez o PT perder votos na reta final do segundo turno. O que importa é que milhões de eleitores brasileiros mudaram seu voto, mesmo com todos os avanços que o governo Lula proporcionou em suas vidas, por conta do debate do aborto. O fato é que este tema esteve a um triz de poder mudar o quadro eleitoral brasileiro.

Os valores da nossa sociedade e principalmente da nossa juventude precisam urgentemente ser disputados por aquelas e aquelas que constroem outra sociedade.  O debate do empoderamento das mulheres não pode esconder a importância de evidenciarmos o machismo existente na sociedade, devendo servir para podermos eleger lideranças que irão pautar e construir politicas públicas que mudem a vida das mulheres.  Para isso é necessário evidenciarmos, cada vez mais, aquilo que oprime as mulheres.

De 2003 a 2007 cerca de 40 mil mulheres foram assassinadas no Brasil. Não podemos mais relativizar a violência contra as mulheres. É necessário estar nítido para a sociedade aquilo que agride as mulheres. É violência contra as mulheres: namorados baterem, xingarem e ameaçarem suas namoradas, é violência contras as mulheres sofrerem trotes sexistas e agressivos nas universidades que expõem as meninas ao ridículo a partir do simples fato de serem mulheres. É uma violência cruel as mulheres morrerem de aborto clandestino e não poderem decidir sobre seus próprios corpos mesmo vivendo em um Estado laico.

É também violência a mídia não ter regulamentação necessária e poder dar glamour à prostituição em suas novelas como se fosse uma opção prazerosa de “emprego”, mercantilizar as mulheres ao terem sua imagem associada a um produto a ser comprado e banalizar o estupro em rede nacional.  É necessário disputarmos com a sociedade a lógica de que trabalho não é vender aquilo de mais íntimo para uma pessoa e que a prostituição é a forma mais explícita de vender o corpo da mulher. Queremos melhorar a condição de direitos de trabalhadores e trabalhadoras e vislumbramos que um dia não precisem vender sua força de trabalho, isso não é compatível com começarmos a regulamentar e vender o corpo da mulher.  O estupro banalizado no reality show não pode servir de debate a partir da ótica pessoal, levando em consideração o comportamento julgado adequado por cada um e cada uma para justificar um crime. Crime é crime e merece punição dentro dos marcos da lei!

Isso demonstra a necessidade dos movimentos sociais disputaram cada vez mais o governo Dilma e politizar mais os debates do seu governo. Os desafios enfrentados no governo Lula não são os mesmos enfrentados no governo Dilma. Não bastará somente aumentar renda, emprego e distribuição de renda para que o governo Dilma seja considerado um governo de grande sucesso (pelo menos na visão daquelas e daquelas que querem uma transformação radical da sociedade). É importante que os embates políticos e ideológicos se deem não somente no que tange aos aspectos econômicos, mas que sejam disputados os valores da nossa sociedade e principalmente da nossa juventude e que, como vimos, pode se sobrepor aos números e resultados econômicos. Não podemos ter dúvida daquilo que é machismo na sociedade e combatê-lo, este é um debate de esquerda versus direita.

* Clarissa Alves da Cunha é vice-presidenta da UNE e membro da Coordenação Nacional da DS. 

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