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Sem censura: a violência contra as mulheres não tem raça, classe ou idade

Sem censura a violência contra as mulheres não tem raça, classe ou idadePor Elisangela Karlinski *

No último dia 30 de setembro, Brasília foi palco de mais um ato de violência machista, protagonizado por Rendrik Vieira Rodrigues, 35 anos, professor de direito e, portanto, conhecedor das leis dos crimes e das penas. Nem o vasto conhecimento acadêmico do criminoso, nem e sua confortável condição econômica o impediram de cometer o crime, mas as investigações indicam que todas as ações foram premeditadas de forma a aliviar a pena.  A vítima, Suênia Sousa de Farias, que teve sua vida ceifada aos 24 anos de idade, engrossa uma lista que já acumula pelo menos 37 assassinatos de mulheres no DF em 2011, com a mesma motivação.

Menos de uma semana depois, um jovem de 18 anos foi detido, suspeito de manter a própria mãe em cárcere privado num apartamento da 911 norte, também em Brasília. Neste mesmo dia (5/10), um adolescente armado invadiu uma escola em Foz do Iguaçu, no Paraná, e atirou contra a namorada. Alegou que estava com ciúmes porque ela iria dançar com outro rapaz numa apresentação teatral. Ambos tem 14 anos! Felizmente, nesse caso, não houve vítimas; o que não minimiza a gravidade do fato, mas nos instiga a refletir sobre o que faz com que o sentimento de posse em relação às mulheres possa ser tão precocemente introjetado pelos homens.

Enquanto familiares e amigos destas mulheres tentam se recuperar do choque, diversos veículos da imprensa ostentam sua indignação sobre a manifestação da Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres (SPM), pedindo a suspensão da veiculação da propaganda da hope – marca de lingerie feminina – protagonizada por Gisele Bündchen. O apresentador Rafael Bastos, afastado do programa CQC por ter atingido “gente que importa”, recebe diversas declarações públicas de apoio, inclusive de intelectuais que abençoam o casamento do preconceito com o humor e que classificam a manifestação do governo como censura. A Ministra Iriny Lopes também é atacada por ter apoiado a ação do sindicato dos metroviários de São Paulo contra um quadro do programa Zorra Total e por ter enviado um pedido ao autor da novela Fina Estampa, da rede globo, sugerindo outra abordagem para o tema da violência doméstica, reproduzida pelo folhetim.

Muitos ainda se perguntam o que a propaganda da hope, o CQC, o Zorra Total e a novela Fina Estampa tem a ver os crimes que ocorreram em Brasília ou em Foz do Iguaçu; ou com outros milhares de casos de violência que acontecem cotidianamente no Brasil. Ora, esses programas e seus protagonistas usam todos os recursos, materiais e simbólicos, para construir uma imagem estereotipada da mulher, promíscua ou submissa, reforçando o machismo e a violência sexista.

Se por um lado, a mídia produz e reproduz a objetificação e a mercantilização dos corpos femininos, a exemplo dos programas citados, por outro, culpabiliza as mulheres vitimadas, responsabilizando-as pela violência sofrida, a exemplo do que vimos na cobertura do caso Elisa Samúdio ou nos comentários a respeito do assassinato de Suênia Sousa. “Coitado do cara, tinha um futuro brilhante… ELA estragou a vida dele.” A mesma lógica é utilizada para culpabilizar as mulheres vítimas de estupro, questionando-se a roupa que vestem ou os lugares que freqüentam.

Dados comprovam que a violência doméstica não tem restrições de raça, classe ou idade; todas as mulheres estão sujeitas a ela e isso independe de seu comportamento ou postura pessoal. A violência é a expressão exacerbada de uma cultura machista e patriarcal, historicamente incorporada ao nosso cotidiano. Ciente desta realidade e do papel que cumpre na sociedade, um sistema midiático que reforça estereótipos e alimenta o ódio contra as mulheres ao invés de denunciar as agressões e seus agentes, é, no mínimo, cúmplice da violência, e precisa ser responsabilizado.

No momento em que Brasília realiza as etapas regionais e Distrital da III Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, este debate não pode ser preterido. O controle social da mídia e a implementação do Pacto Nacional de Enfrentamento à Violência, aí incluída a efetiva aplicação da Lei Maria da Penha pelo poder judiciário, devem estar no centro deste debate. Que as mulheres de Brasília e do Brasil mirem-se em seu exemplo e sigam firmes em sua luta pela igualdade, pelo fim da opressão e de toda forma de violência.

*Elisangela Karlinski é socióloga, militante da Marcha Mundial das Mulheres e membro da Coordenação do Setorial de Mulheres do PT-DF.

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