Brasil pode ser decisivo contra o colonialismo recrudescido de Trump, diz filósofa. Virada expressa mesmo desejo de futuro que move juventude na Europa, e revela a importância de buscar formas de democracia além das instituições e do liberalismo

Judith Butler não sabia quem venceria as eleições brasileiras quando esta entrevista foi gravada. Ninguém sabia. Eram onze da manhã de domingo no Rio de Janeiro, 15h em Florença, e faltavam seis horas para o fechamento das seções no horário então previsto. A conversa durou 45 minutos, e nenhuma das onze respostas se protegeu atrás do futuro do pretérito.
A filósofa que desafia as concepções essencialistas de corpo, gênero e sexo – mas o faz em constante diálogo com as ideias do socialismo – frisou a importância internacional da então incerta vitória de Lula. Argumentou que um triunfo da ultradireita significaria medo permanente para a esquerda brasileira, as favelas, os corpos das mulheres e dos trans. Mas lembrou: o “neo”-fascismo cresce em todo o Ocidente. A mesma insegurança vitima os imigrantes nos Estados Unidos. E agora até os adolescentes que saem às ruas pelo Comum, na França e Itália, enfrentam os cassetetes e o gás lacrimogênio da polícia, interessada em produzir violência. Por isso, o fato de mobilizações sociais potentes abrirem uma alternativa, num país relevante como o Brasil, tem relevo mais amplo.
Convidada a analisar o cenário brasileiro a partir de seus livros, Butler não se furtou ao desafio. “Precarious Life”, que debate a insegurança produzida pelo neoliberalismo sobre certas vidas, remete também à fome, que Lula enfrentou. A filósofa viu, na pergunta que lhe foi dirigida, a oportunidade de dizer que é legítimo questionar os limites das políticas do presidente. Mas lembrou que quem presssiona o presidente a avançar não deve correr o risco de negar a importância do ambiente democrático que seu governo assegura.
“What World is This” estabelece nexos entre o corpo de cada ser humano e suas relações com a condição e o destino do planeta. Ao abordar a obra, Butler destacou a relação entre o extrativismo, o descaso com a natureza e o negacionismo climático, típicos da ultradireita, e a ambição de lucrar sem limites e de impor a supremacia da masculinidade. Tudo isso, lembou, nega “nossa humanidade e nossa condição de criaturas vivas interconectadas no mundo”.
“The Psychic Life of Power” descreve o estranho fascínio das sociedades com aquilo que as subjuga e sufoca. A entrevistada descreveu um dos efeitos mais dramáticos do sistema que nos submete: impedir as vítimas de identificar e nomear o próprio sofrimento e o que está destruindo seu mundo. Mas argumentou que esta forma de alienação pode ser superada quando aceitamos “que cada um de nós, como ser vivo, é igual ao outro”; quando superamos formas de negação do outro como o racismo e a misoginia; quiando nossas manifestações políticas nascem – como as que mudaram os rumos da eleição brasileira no segundo turno – “do desejo, da alegria e da celebração”.
O que veio depois da entrevista está nos números. Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito por diferença de 4,4 milhões de votos A democracia brasileira saiu de pé. O Brasil começa agora o seu quarto experimento com Lula, e desta vez com um presidente renovado pelas ruas, empurrado por uma juventude que saiu às ruas a partir de 6 de outubro, numa mobilização que chegou a quarenta universidades em mais de dez estados.
Judith Butler é doutora em Filosofia pela Universidade de Yale desde 1984 e “Distinguished Professor” na Universidade da Califórnia em Berkeley e titular da cátedra Hannah Arendt na European Graduate School. Estava em Florença
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Thiago Gama é Doutorando em História Comparada pelo PPGHC da UFRJ, e é orientado pela Profª. Drª. Beatriz Bissio.
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