As controvérsias envolvendo a Meta na disputa presidencial brasileira expuseram o poder das grandes plataformas sobre a comunicação política e a urgência de enfrentar a concentração econômica e a dependência tecnológica.

As eleições presidenciais de 2026 expuseram uma das contradições mais profundas da democracia contemporânea: enquanto a Constituição estabelece que todo poder emana do povo, parcela crescente das condições em que se forma a vontade política encontra-se submetida ao controle de gigantescas corporações privadas transnacionais.
As controvérsias envolvendo a Meta, proprietária do Facebook, Instagram e WhatsApp, revelaram a extensão desse poder. Não se trata apenas da disseminação de notícias falsas ou do uso abusivo da inteligência artificial, mas da capacidade de ampliar ou restringir a circulação de manifestações políticas por meio de sistemas algorítmicos cujos critérios permanecem, em grande medida, inacessíveis à fiscalização pública.
A inteligência artificial generativa, associada à exploração de dados pessoais e ao direcionamento de mensagens, ampliou as possibilidades de manipulação da vontade eleitoral. Já não se trata apenas de fabricar conteúdos falsos, mas de organizar ambientes informacionais capazes de explorar medos, ressentimentos e vulnerabilidades individuais.¹
Os acontecimentos de outubro acrescentaram outra dimensão a esse problema: o poder das próprias empresas que controlam as infraestruturas digitais sobre as quais se desenvolve parcela crescente do debate político.
A Meta e as Controvérsias do Segundo Turno
As denúncias apresentadas pela campanha de Lula durante o segundo turno não se limitaram a diferenças nos indicadores de engajamento das redes sociais.
Reportagem da jornalista Patrícia Campos Mello, publicada na Folha de S.Paulo, revelou mensagens internas de funcionários da Meta reconhecendo restrições que prejudicaram as contas publicitárias de Lula no Instagram e problemas nos mecanismos de recomendação de conteúdos relacionados a Flávio Bolsonaro.
Também foram relatadas dificuldades no impulsionamento de publicações, restrições de alcance e diferenças no funcionamento de sistemas de busca, inclusive nos canais políticos do WhatsApp.
Em 15 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral determinou que a Meta adotasse 17 medidas destinadas a assegurar tratamento igualitário às candidaturas presidenciais, sob pena de multa diária de R$ 500 mil.
Posteriormente, o Comitê de Supervisão da própria empresa reconheceu falhas na aplicação de suas políticas de integridade eleitoral. Especialistas independentes vinculados às Nações Unidas manifestaram preocupação com as restrições à expressão política, enquanto o Ministério Público Eleitoral apontou o cumprimento parcial das determinações judiciais.
A Meta negou favorecimento político deliberado e atribuiu os problemas “a falhas técnicas”.
O problema ultrapassa a eventual responsabilização pelos episódios da campanha. Reside na existência de um poder privado capaz de condicionar a circulação da informação política sem estar submetido a mecanismos suficientes de transparência e controle democrático.
A atuação da Justiça Eleitoral também merece crítica. O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, protagonizou decisões controversas durante o segundo turno, especialmente em relação ao canal Exército do Lula, no WhatsApp.
Atendendo a pedidos da campanha de Flávio Bolsonaro, determinou sucessivas restrições ao canal, embora a equipe técnica do próprio Tribunal não tenha confirmado a desinformação apontada nas publicações examinadas. Suas decisões provocaram conflitos de competência e foram contestadas por outros integrantes da Corte.
A sucessão de intervenções sobre um importante canal de apoio a Lula contrastou com as dificuldades de assegurar uma fiscalização efetiva dos mecanismos algorítmicos da Meta, expondo problemas de coerência e proporcionalidade na condução institucional da disputa.
Leia o artigo completo clicando AQUI.
Lúcio Costa é Advogado, especialista em Direito Eleitoral.