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A eleição no teatro-mundo | Luiz Marques

“Se deixarmos nosso destino nas mãos de palhaços sociopatas, é o nosso fim”. A frase está no prefácio ao livro Internacionalismo ou extinção (Crítica), de Noam Chomski. O pensador nascido na Filadélfia, em 1928, continua um ativista político atento aos perigos que rondam o futuro: “a ameaça da guerra nuclear, a ameaça do aquecimento global e a deterioração da democracia”. A guerra na Ucrânia é o resultado da expansão da Otan para o Leste europeu, a ponto de o governo Obama oferecer a controvertida adesão ao Estado ucraniano que se situa no espaço da geopolítica russa – um “erro trágico”, conforme diplomatas tarimbados.

O risco da situação descambar para um conflito mundial, que ponha um termo atômico ao pesadelo iniciado em Hiroshima, é real. A missão da Otan, hoje, é administrar o que sua insensata existência acarreta de malefícios à paz. Rumo ao extermínio, os tratados de redução de armas estratégicas são desconstituídos pela potência hegemônica e demais competidores, no mercado. Ilude-se quem acha que mísseis antibalísticos são artefatos militares de defesa.

O espectro que paira sobre o aniquilamento da espécie não anda sozinho, por óbvio. O aquecimento global é uma evidência com implicações tenebrosas, aponta o Grupo de Trabalho do Antropoceno, que estuda o impacto das ações humanas no meio ambiente. Dados revelam que 31,5 milhões de pessoas, a cada ano, se deslocam por causa de inundações e tempestades, um efeito já previsto há décadas. O derretimento da geleira do Himalaia acabará com o suprimento de água no sul da Ásia, impactando bilhões de seres vivos. O colapso do manto de gelo na Antártida aumentará o volume das marés. O planeta se aproxima das condições de 125 mil anos atrás, quando o nível do mar era 7,6 metros mais alto. Uma crise de refugiados bate à porta.

A queda de Barcelona para as forças fascistas do Gal. Franco, em fevereiro de 1939, levou quarenta mil refugiados da Espanha para o México. Outros tantos se dirigiram para Nova York, onde fixaram filiais anarquistas na Union Square, com sebos de livros usados na Quarta Avenida. Essas sequelas foram provocadas pela ascensão do nazifascismo, na Europa central. A máxima de Mark Twain, “a história não se repete, mas às vezes rima…”, permite antever as diásporas que redesenharão o mapa-múndi amanhã, com o esvaziamento da democracia liberal.

O esboroamento do Estado de direito democrático naturaliza o autoritarismo, com a rima que une o passado ao presente. O populismo extremista tem conquistado cargos políticos importantes nos Estados Unidos, Rússia, Turquia, Egito, Índia, Hungria, Polônia, Itália. A estagnação do padrão de vida, o medo da democracia multiétnica e as redes sociais a serviço do regressivo projeto iliberal empurram a democracia para o precipício anticivilizacional.

Trata-se de uma articulação ultra-reacionária e ultranacionalista. A peculiaridade brasileira é que o nacionalismo bolsonarista, por detrás do espetáculo semiótico das bandeiras, nutre um entreguismo lesa-pátria com o neoliberalismo hard. O líder da esquerda estadunidense, Bernie Sanders, propõe a formação de uma Internacional Progressista para barrar o avanço do tradicionalismo que confronta os valores da modernidade, como a igualdade e a própria liberdade. Pelo negacionismo perante as armas nucleares, as mudanças climáticas e encruzilhadas da democracia, o Republican Party (EUA) marcha com os Cavaleiros do Apocalipse. Ciente das graves consequências, o nonagenário Chomski pergunta: “a sociedade sobreviverá por muito tempo?”

Para responder, é preciso indagar o papel do Brasil na proteção da humanidade e do planeta, pós-eleição. Ao revés do que na pandemia o genocida negou ser, com Bolsonaro teríamos o “coveiro” da esperança que celebra a distopia (a destruição, a corrupção, a perversão). Pária transnacional, o vulgar mentiroso da extrema direita aprofundaria a exploração do povo e a espoliação da nação. Em escala planetária, faria coro com a necropolítica do neofascismo. Se várias federações da indústria, agricultura, comércio e lojistas respaldam o candidato obscurantista, tal confirma uma persistente mentalidade escravocrata entre as classes dirigentes. Os trabalhadores são ainda percebidos como os negros escravizados, sem o sagrado direito a ter direitos.

Com Lula teremos um protagonista: a) do desarmamento nuclear e do empoderamento de um fórum capaz de arbitrar a paz, na ONU; b) na defesa da Amazônia e da economia verde e; c) no apoio às políticas socioeconômicas para revigorar as instituições republicanas. A liderança de estadista de Lula é o ativo de garantia ao futuro de todas, todos e todes. Se pobres, assalariados e também os intelectuais endossam majoritariamente a plataforma do candidato que fundou o PT, tal demonstra que uma contra-hegemonia de baixo para cima está em construção. A participação popular traz à luz experiências emancipadoras em diferentes comunidades.

O mundo olha com expectativa para o embate que se desenrola no Brasil. Cabe aos eleitores a decisão no teatro mambembe, recheado de fake news fabricadas no porão do Palácio do Planalto e manchado pelo uso escandaloso da máquina governamental, com “bondades” às custas do Erário público que serão desmentidas na primeira semana de novembro. Áudios escancaram a compra de votos pela “elite” treinada em falcatruas. A disputa política – sobre o Estado e a sociedade que queremos – possui uma dimensão moral. Vote com amor e consciência.

Luiz Marques é Docente de Ciência Política na UFRGS, ex-Secretário de Estado da Cultura no Rio Grande do Sul

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