Chico Buarque e Sílvio Rodriguez capturam resiliência e alegria do povo cubano em regravação de Sonho com Serpentes

Brasil de Fato

Nova versão da canção de Silvio, gravada com Chico em Havana, une arte, memória e solidariedade à Cuba atual

Em 1975, Silvio Rodríguez lançava Días y flores, seu primeiro álbum de estúdio. Naquela época, a voz e o violão de Silvio já vinham, há vários anos, percorrendo e integrando os novos movimentos artísticos e musicais que surgiram após a Revolução.

Días y flores tornou-se um marco fundador da Nova Trova cubana e contribuiu de forma decisiva para a consolidação internacional do movimento. Praticamente metade das canções do álbum transformou-se em verdadeiros hinos geracionais. Foi nesse disco que nasceu Sueño con serpientes, uma das canções mais emblemáticas de seu repertório e uma autêntica trincheira de sua poética.

Cinco décadas depois, esse hino retorna em uma nova versão. Em um momento em que Cuba enfrenta ameaças militares e uma forte asfixia econômica e energética por parte dos Estados Unidos, Chico Buarque viajou a Havana para gravar, junto com Silvio Rodríguez, essa nova versão. Os recursos arrecadados serão doados à ala de pediatria do Instituto Nacional de Oncologia de Cuba.

A canção foi lançada no último dia 15 de maio, simultaneamente em plataformas digitais e nas redes oficiais de ambos os músicos, acompanhada de um videoclipe filmado inteiramente em Havana. Uma ponte cultural e afetiva entre duas das vozes mais importantes da canção latino-americana.

Com Havana convertida em protagonista, o videoclipe mostra uma cidade marcada por dificuldades e carências, assim como pelas feridas da guerra econômica que os Estados Unidos mantêm sobre a ilha há mais de seis décadas.

Mas também, as imagens, trabalhadas com enorme sensibilidade e longe de qualquer romantização ou simplificação política, revelam a beleza do povo, sua resiliência e seus afetos cotidianos: os sorrisos e os entardeceres de um povo que sonha, dança e ri.

O reencontro entre Chico e Silvio, depois de décadas sem se verem, atravessa o relato, convidando o espectador a fazer parte de uma cumplicidade serena e profundamente comovente. A direção e a fotografia do vídeo ficaram a cargo do jovem realizador brasileiro Francisco Proner, com assistência de direção de Beatriz Miranda e montagem e colorização de Larissa Armstrong.

Foto: Francisco Proner

Uma ponte entre gerações

As canções de Silvio fazem parte das crônicas sentimentais de Cuba: melodias e poemas que atravessam gerações e entrelaçam histórias pessoais e coletivas.

A jovem estudante de jornalismo Amalia Peña conta que seus pais escolheram seu nome por causa da canção El Mayor, também incluída em Días y flores.

“Comecei a ouvir Silvio porque minha mãe colocava suas músicas desde que eu era muito pequena, e inclusive meu nome vem de uma de suas canções. Mas, para os jovens cubanos, ele se tornou uma forma de se conectar com esse processo revolucionário e de entendê-lo como algo nosso”, conta Amalia em conversa com o Brasil de Fato.

Amalia ri enquanto relata quantas meninas, como ela, carregam seu nome por causa dessa canção de Silvio. A canção é uma homenagem ao patriota cubano Ignacio Agramonte (conhecido como “El Mayor”), uma das figuras mais importantes da Guerra dos Dez Anos contra o colonialismo espanhol no século XIX.

O lançamento dessa nova versão de Sueño con serpientes foi acompanhado com grande expectativa por amantes da música em todo o mundo. Em um momento tão difícil para o país, a obra não apenas ganha um sentido solidário por meio das doações dos artistas, mas também como um lembrete de todas as lutas que os sonhos revolucionários tiveram de enfrentar.

Um lembrete de que, apesar de a serpente que o poeta mata “aparecer uma maior”, ela finalmente é destruída “quando chego ao seu estômago / e apresento, com um verso, uma verdade”.

Editado por: Rodrigo Gomes / Via Brasil de Fato

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