“Hoje esta casa faz as pazes com a democracia”

Redação DS

A frase faz parte do pronunciamento da ex-prefeita Rita Sanco na Câmara Municipal de Gravataí, no RS

Uma noite para lavar a alma. Esta foi a definição usada pela maioria das pessoas que compareceram na Sessão Especial da Câmara Municipal de Gravataí, na noite de 27/04, que fez o reconhecimento público das decisões judiciais favoráveis à ex-prefeita Rita Sanco e ao ex-vice-prefeito Cristiano Kingeski, que tiveram seus mandatos cassados em 2011. A solenidade foi de iniciativa do presidente da Casa, vereador Dilamar Machado (PODE), a partir de decreto legislativo subscrito por 15 parlamentares.

Dilamar Machado (o vereador Dila como é conhecido) abriu a sessão com a leitura do decreto, anunciando que se trata de uma devolução simbólica do mandato, sem efeitos jurídicos, uma vez que a atual legislatura não pode desfazer o ato de 2011. “Este decreto se destina ao fim moral de restaurar a honra da ex-prefeita Rita Sanco e do ex-vice-prefeito Cristiano Kingeski. Não posso mudar o passado, mas este Legislativo hoje está afirmando que uma maioria de vereadores não pode cassar o voto de milhares de cidadãos gravataienses”, afirmou Dilamar.

Estiveram presentes na sessão o vice-presidente da Câmara, Hiago Pacheco (PP), Aírton Vasconcelos (MDB), Alex Peixe (PSDB) e Vitalina Gonçalves (PT). O deputado emérito da ALRS, Raul Pont, representou a Executiva Estadual do PT/RS. Os deputados Elvino Bohn Gass, Miguel Rossetto, Pepe Vargas, Laura Sito, Professor Bonato e a deputada Stela Farias enviaram representantes. O ex-deputado Tarcísio Zimmermann e o vereador de Cachoeirinha, Leo Costa, também marcaram presença.

Cristiano Kingeski fez um discurso emocionado, diante dos três filhos. “Hoje volto àquela campanha de 2008, que fizemos em apenas seis dias, e que se consagrou como a maior votação já recebida por uma chapa majoritária na história da cidade”, disse. Ele agradeceu ao vereador Dila e aos demais que assinaram o decreto. Dirigindo-se a Raul Pont, comentou: “Raul, tu lutou contra a ditadura militar e melhor do que ninguém sabe o absurdo que é seguir em vigor um decreto assinado por Castelo Branco, em 1967, permitindo que maiorias de ocasião cassem prefeitos legitimamente eleitos”. 

“Que festa, né?”, disse Rita Sanco, olhando para a plateia. Com a serenidade que é sua marca registrada, Rita lembrou todo o processo de cassação, as duras batalhas para restaurar a justiça que se travaram nos últimos quinze anos. Saudou todos os que compuseram o seu governo, bem como os partidos políticos. Agradeceu a sua família (mãe, marido, filhos e netos presentes) e lamentou que o seu pai não estivesse vivo para assistir a este momento, pois foi um dos que mais sofreu com a injustiça sofrida pela filha. Olhando para os filhos de Cristiano disse: a partir de hoje vocês podem reafirmar que o pai de vocês não tinha nenhum problema.

 “Quero fazer um agradecimento especial ao vereador Dilamar, pois foi um gesto de muita coragem para quem conhece os bastidores da política em Gravataí. Nem todo mundo comunga dessa democracia com respeito aos que pensam diferente. Este ato de hoje permite que esta Casa faça as pazes com a democracia, que reconheça que cometeu um erro, pois todas as acusações foram desmontadas como um castelo de cartas. Eu já dizia isso em 2011, porque eu sabia o que eu tinha feito no governo. Aliás, eu sabia que estava sendo cassada mais pelos meus acertos do que por eventuais erros: de defender o interesse público, de dialogar com a cidade e com o Legislativo”, discursou Rita.

Como boa professora de História, Rita rememorou o estabelecimento da democracia no Brasil, os golpes ao longo das décadas até a tentativa do 8/1/2023. “Eleição a gente perde ou a gente ganha. O meu campo popular, progressista e de esquerda já perdeu muita eleição, mas nunca contestou o resultado das urnas, porque a gente respeita a decisão democrática e o voto das pessoas”, lembrou.

Ao agradecer todos parlamentares que assinaram o decreto, Rita Sanco destacou que as três vereadoras da legislatura subscreveram o documento. “Se fosse um prefeito teria sido cassado? Naquela decisão também pesou o machismo, a misoginia. Infelizmente, os homens se sentem muito à vontade para tomar conta dos mandatos das mulheres. E hoje estamos vendo a violência que está aí. As mulheres não se sentem seguras nem em casa, nem na rua, nem na vida política”, desabafou Rita. 

Rita finalizou dizendo que a sessão especial, com devolução simbólica dos mandatos, vai repaginar a história da cidade e blindar a democracia para que outros episódios deste tipo não aconteçam, pois a pior das democracias vai ser sempre melhor do que uma ditadura”.

Confira aqui a sessão especial:

Leia aqui a íntegra do decreto legislativo:

https://www.cmgravatai.rs.gov.br/documento/decreto-legislativo-5-2026-359681

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