Socióloga conversou com o SindBancários e deu sua visão sobre as IAs a partir da sua experiência na China

Socióloga e integrante da Coordenação Nacional da Marcha Mundial das Mulheres (MMM), Tica Moreno trabalha diretamente com organizações como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), em iniciativas que aplicam tecnologia à reforma agrária e à agroecologia. Em conversa com o SindBancários, Tica explicou os desafios e as possibilidades dos modelos de Inteligência Artificial (IA), com duras críticas aos modelos dos Estados Unidos, e mostrando caminhos dentro da perspectiva do que vem sendo adotado na China, onde passou três anos estudando e participando de projetos.
SindBancários: Como você define a Inteligência Artificial hoje, de forma simples e crítica dentro do contexto social, político e econômico do Brasil?
Tica Moreno: A Inteligência Artificial é uma tecnologia, e o impacto dela vai ser tão grande quanto o fogo, quanto a máquina a vapor, quanto a eletricidade ou até mesmo quanto a linguagem, em termos desse alcance da transformação que ela traz na nossa sociedade. Mas a Inteligência Artificial, primeiro, não é inteligente, não é autoconsciente. Ela tem sido desenvolvida por nós, seres humanos, nesse momento histórico. É desenvolvida de uma forma desigual, principalmente no norte global, usando muito das nossas infraestruturas em termos da base material. E para que vai servir a Inteligência Artificial? Também tem a ver com para qual caminho a gente vai seguir como sociedade, mas o alcance da transformação que a Inteligência Artificial traz, ele é brutal, ele é muito grande.
SindBancários: Como foi a experiência de ir para a China estudar a Inteligência Artificial, e entender esse cenário diferente do norte-americano?
Tica Moreno: O meu encontro com a Inteligência Artificial veio de um processo de trabalho, de construção, de cooperação entre o Brasil e China, principalmente na área da agricultura familiar, da mecanização e das tecnologias para o setor. Na China, a agricultura familiar tem uma alta taxa de mecanização, diferente do Brasil, que não chega a 12%. Com isso, após o DeepSeek ser lançado, em 2025, na China, veio outro movimento desse meu encontro com a Inteligência Artificial. Eu estava em um projeto de análise de Big Data para pesquisa em Ciências Sociais, e nós começamos a desenvolver alguns projetos para colocar a Inteligência Artificial dentro desse modelo a partir do DeepSeek e do código aberto. É uma realidade muito diferente do que vivemos no Brasil, em que estamos em uma situação de total dependência e subordinação ao modelo que vem direto das Big Techs dos Estados Unidos. Na China, a dimensão da Inteligência Artificial está devidamente integrada, cada área tem as suas aplicações sendo desenvolvidas para servir os interesses da política do país.
SindBancários: Como você consegue identificar a Inteligência Artificial contribuindo na questão da violência contra a mulher?
Tica Moreno: Tem uma primeira dimensão de localizar nesse debate da violência, por exemplo, a Inteligência Artificial. Ela está incorporada no que são hoje as grandes plataformas de redes sociais, de grandes empresas que têm o controle sobre isso. Antes mesmo das IAs, nós já tínhamos nesses espaços, que são privados, proprietários de grandes empresas, e uma dificuldade de regulação, não só para as mulheres, mas para toda a população que é alvo da violência. E essas tecnologias são desenvolvidas em uma sociedade que tem a violência contra as mulheres como um instrumento estrutural em um grau de controle. E isso tem a ver com controle e disciplinamento dos nossos corpos, das nossas sexualidades, do nosso trabalho. É nessa sociedade que esse mundo digital está se formando. Nós precisamos pensar no caso da violência de uma forma integrada, ou seja, o problema da violência contra as mulheres não é a Inteligência Artificial, mas essa tecnologia é parte do problema, principalmente no que diz respeito às imagens, que são manipuladas nessas infraestruturas e aprofundam essa questão em vários níveis.
SindBancários: De que forma você enxerga a Inteligência Artificial reforçando essas violências já existentes?
Tica Moreno: Qualquer exercício que a gente faz na Inteligência Artificial, seja das imagens ou dos textos, é possível ver como esses modelos são totalmente enviesados. São vieses de gênero, raça, posição de classe, postura e posicionamento político. O viés da Inteligência Artificial também é super ocidental em uma visão hegemônica capitalista que é anti-esquerda. E precisamos falar que não é a Inteligência Artificial, mas são modelos de Inteligência Artificial, porque não é só uma, mas são várias aplicações. Os grandes modelos de linguagem, que é uma parte da IA, são treinados com muitos dados, que são basicamente toda a produção publicada na internet dos Estados Unidos. E dentro desses grandes modelos de linguagem, vão ter empresas e pessoas que estão treinando esse modelo e estabelecendo os parâmetros para esse modelo gerar respostas. Tudo isso tem a ver com controle e direcionamento.
SindBancários: Você enxerga os modelos de Inteligência Artificial como uma ferramenta ou um projeto político?
Tica Moreno: Hoje, para mim, está muito definido que é parte de um projeto político. Nós estamos refletindo que a Inteligência Artificial está em um momento crucial para entendermos possibilidades históricas distintas. Se olharmos a Inteligência Artificial no contexto do projeto imperialista dos Estados Unidos, nós vemos ela profundamente militar, pois é a mesma usada pelo exército, e que nós usamos aqui no Brasil. Essas coisas se retroalimentam, tem esse uso dual. Mas está nítido que faz parte de um projeto político. E a outra alternativa a esse modelo, também faz parte de um projeto político de sociedade, que é contra hegemônico, que está na linha de uma construção socialista. Dentro da elaboração chinesa, a Inteligência Artificial é uma nova qualidade das forças produtivas, que não é apenas um projeto político, mas um projeto de sociedade que tem ligação com as relações de produção.
SindBancários: Pensando nesse ano, no cenário Brasil 2026, como você enxerga a Inteligência Artificial interferindo nos processos políticos eleitorais do país?
Tica Moreno: Nós temos visto, inclusive desde o ano passado, as forças da extrema direita sendo treinadas pelas grandes empresas dos Estados Unidos. De fato, isso é parte do projeto político deles. E vai ter uma interferência muito grande, justamente por isso. Essa é uma tecnologia que faz parte do projeto das Big Techs dos Estados Unidos, totalmente alinhado com o que é o Trump hoje, da decadência como projeto de sociedade. É uma decadência econômica, de valores morais e, ao mesmo tempo, é perigoso. As eleições do Brasil não são pouca coisa, a gente sabe que o interesse dos Estados Unidos não é que o povo esteja no poder, e sim que a extrema direita esteja lá, devidamente alinhada aos interesses deles. E vão colocar todo o arsenal que eles têm, inclusive a Inteligência Artificial, para operar a visão política que eles querem que predomine.
SindBancários: E como a esquerda pode usar a Inteligência Artificial para combater, principalmente, as Fake News, que é o que mais acontece?
Tica Moreno: Essa é a pergunta que todo mundo está tentando responder. E eu acho que não tem exatamente uma receita, mas a primeira coisa é não negar esse debate e entender exatamente as dimensões técnicas e políticas do que está em jogo. Nós precisamos ter um processo grande de formação, da base dos movimentos sociais, dos partidos, da sociedade em geral, para aprender a lidar com isso e identificar o que é verdade, ou se é mentira. Nós, da Marcha Mundial das Mulheres, sempre achamos que as soluções não estão exatamente na tecnologia em si, mas no povo brasileiro, como classe trabalhadora organizada. Para enfrentar essa avalanche que vem contra nós, precisamos de debate, processo de formação e reflexão. Não podemos apenas ficar rodando a tela do nosso celular, mas conversar com as pessoas sobre o que está acontecendo. Porque se tivermos a capacidade de conscientizar a população sobre o que está acontecendo, fica mais fácil de explicar o que é Fake News ou não.
SindBancários: E quais são os principais riscos sociais desses avanços das Inteligências Artificiais no Brasil? Quem ganha e quem perde?
Tica Moreno: Da forma como está hoje, nós perdemos como país, porque está difícil a gente ver um projeto estratégico nosso, do Brasil, para essa área. É difícil conseguir ver um projeto para soberania digital, por exemplo. Da forma que está, nós estamos nesse lugar de dependência e de subordinação. O nosso lugar aqui, hoje, é de fornecedor de dados. Os dados que deveriam ser protegidos, estão sendo entregues para as empresas dos Estados Unidos. É um absurdo o fato de que a maior parte dos dados da educação pública brasileira está hospedado nas nuvens da Microsoft e da Amazon. A Inteligência Artificial vai dominar as próximas dezenas de anos da humanidade. Isso está bem nítido, tanto para os Estados Unidos quanto para a China, e a gente parece que está só olhando.
SindBancários: E como os sindicatos e os movimentos sociais devem se preparar para essa realidade?
Tica Moreno: Ao longo da história dos movimentos socialistas, da organização da classe trabalhadora, o jogo não esteve sempre ao nosso favor, pelo contrário, mas sempre encontramos formas de avançar com o nosso projeto. Isso passa por tomar esse assunto na dimensão que ele tem. Ou seja, não é assunto de técnicos, precisamos assumir isso como um debate político central. É um debate sobre o modelo de sociedade que está colocado. Para nós, da Marcha Mundial de Mulheres, isso é muito evidente. O que nós precisamos pensar para ter soberania tecnológica e soberania digital é a infraestrutura. O caminho para essa construção é botar a mão, pegar o assunto para nós politicamente, mas também assumir o desenvolvimento.
SindBancários: De que forma podemos proteger a nossa soberania digital, os nossos dados e os nossos recursos naturais? Quais são os perigos para a democracia e para a soberania do Brasil?
Tica Moreno: Nós temos que pensar nos dados como matéria-prima. Os sistemas algorítmicos rodam em cima das infraestruturas físicas que são os servidores, que estão processando. Isso são as forças produtivas, os meios de produção. O fato de termos os dados e as máquinas para processar esses dados para virarem outra coisa é o que nos permite ter soberania nessa área. Não é somente ter uma legislação de proteção de dados sensíveis, é necessário investir na infraestrutura e no desenvolvimento dos sistemas algorítmicos e dos modelos que permitam que possamos processar os nossos dados e gerar resultados. Essas seriam as soluções para atender as necessidades do povo. Isso é um caminho para a construção da soberania e para se proteger dos riscos e ameaças que vêm. O fato de estarmos totalmente dependentes das grandes empresas dos Estados Unidos, significa que se cair os servidores deles, cai tudo para nós. Eles têm capacidade de inviabilizar o debate político no Brasil. Os Estados Unidos controlam o que a gente pode fazer. Eles não necessariamente precisam nos bombardear para inviabilizar um espaço nosso. Mas eles controlam a nossa possibilidade de ser um país soberano e democrático.
SindBancários: E para finalizar, como você enxerga o futuro, pensando em um cenário de 5, 10 anos dentro desse contexto?
Tica Moreno: Acho que nós temos condições de ganhar. Acho que estamos em um momento que, de fato, os próximos anos são decisivos nesse sentido, de para onde vai esse desenvolvimento tecnológico, mas também de para onde vai o jogo de forças internacional. E não dá para discutir Inteligência Artificial sem considerar a conjuntura geopolítica. Não tem uma resposta onde vamos estar, mas acho que temos condições de organização para não deixar que o projeto dos Estados Unidos ganhe de novo.
Por Daniele Brito / SindBancários