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O Bolsonarismo oficial em Duque de Caxias: e agora, PT? | Mateus Mendes

Um episódio grotesco ganhou os holofotes nos últimos dias, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense: o prefeito Wilson Miguel havia prometido um novo prédio para a Escola Municipal Zilda Arns. Inaugurada a obra, a escola foi rebatizada: agora, a unidade de ensino passa a se chamar Olinda Bonturi Bolsonaro. No lugar da sanitarista e pediatra, uma das fundadoras e coordenadoras da Pastoral da Criança, a homenagem insólita à mãe do presidente Bolsonaro.

Wilson Miguel assumiu a prefeitura em abril, quando Washington Reis (MDB) renunciou para se desincompatibilizar e poder disputar as eleições deste ano. Caxias é a segunda cidade mais rica do Rio de Janeiro e uma das 20 mais ricas do Brasil. O município é terceiro maior colégio eleitoral do estado e um dos vinte maiores do Brasil.

Quando esteve na Câmara (2015-16), Washington Reis foi homem forte de Eduardo Cunha, furou a fila para votar pelo golpe e votou pela PEC do Fim do Mundo. Enquanto prefeito (2017-2022), desmontou o plano de carreira dos servidores, sucateou a educação, perseguiu sindicatos.

A troca do nome de um prédio público em Caxias não é propriamente uma cena inédita. No final de 2018, a inauguração da escola que seria a mais moderna do município e receberia o nome de Edinha Maia, professora falecida em 2010 e cuja vida fora dedicada à educação e à luta pelos direitos dos educadores caxienses, foi palco de bizarrice semelhante. Para agradar o presidente recém-eleito, Reis decidiu que a escola deveria tornar-se o III Colégio da Polícia Militar e que seu nome deveria ser Percy Geraldo Bolsonaro, o pai de Jair Bolsonaro.

Apesar de tudo isso, há setores do PT-RJ que fazem questão da ser linha auxiliar de Washington Reis, do MDB e, portanto, do bolsonarismo. Isso ficou evidente com a manobra, liderada por Celso Pansera, para boicotar a candidatura do PT à prefeitura em 2020. Pansera é presidente do Instituto de Ciência, Tecnologia e Inovação de Maricá (ICTIM), Maricá é a base do outro Washington, o Quaquá, atual vice-presidente nacional do partido e líder do grupo hegemônico no PT estadual. Pansera chegou posar em uma foto que ilustra uma “matéria” que afirmava que o PT-Caxias apoiaria a reeleição de Reis.

O fato de essa manobra ter malogrado não impediu a movimentação de alinhamento ao bolsonarismo. Na eleição de 2020, o PT elegeu um vereador em Caxias, Eduardo Moreira. Moreira assumiu uma secretaria no novo governo de WR. O vereador é o atual secretário de Ciência e Tecnologia. Com sua ida para o Executivo, assumiu seu suplente, Nivan de Almeida. Em sua passagem anterior pela Câmara Municipal, Nivan fora líder do governo Washington Reis. Esse histórico não impediu que Pansera e seu grupo o filiassem ao partido. Com isso, o PT Caxias tem um secretário numa prefeitura identificada com o bolsonarismo e seu único vereador é base do governo.

Essa situação esdrúxula não conta com apoio unânime dentro do PT. Foi aberto procedimento na Comissão de Ética no Diretório Municipal (DM), a fim de apurar a nomeação de filiados do partido para cargos comissionados na prefeitura de Caxias. A lista de investigados possui mais de vinte nomes, entre filiados comuns e aqueles com alguma função nas instâncias partidárias.

Segundo o Estatuto do Partido, apoiar governos que contrariem os princípios programáticos do PT constitui em infração disciplinar. Além disso, em 2020, a Comissão Executiva deliberou que estavam vetadas aliança com a extrema-direita. Por isso, o parecer da Comissão de Ética, emitido em agosto de 2020, foi pela expulsão dos filiados.

Porém, quando chegou no Diretório Estadual, o relatório foi para geladeira. Até hoje não foi à votação porque o DE julga que não é matéria relevante. A estratégia é clara: o grupo liderado por Quaquá pretende engavetar o relatório porque não há como rejeitar seu parecer. A aliança é politicamente indefensável.

É importante deixar nítido: por trás dessa troca de nomes, está a disputa pela memória e pelas referências que orientarão as futuras gerações caxienses. A ideia é eliminar da história nomes identificados com as lutas populares e, de quebra, utilizar a gestão municipal para promover a campanha de Bolsonaro à reeleição.

O PT precisa deixar claro para toda a sociedade que o partido não compactua com neofascismo. É urgente que o partido se desvincule da prefeitura bolsonarista, entregando todos os cargos imediatamente, e que recupere na cidade o seu compromisso histórico com a luta por uma vida melhor.

 

Mateus Mendes é militante da CSD, professor do Município de D. de Caxias e ex-Diretor do SEPE D. de Caxias

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