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O DAY AFTER DA EXTREMA-DIREITA | Luiz Marques

– Amigo oculto

Recebi de um amigo empresário extenso e-mail em que, apoplético, pedia para eu não lhe enviar mais nenhum texto antibolsonarista. Indubitavelmente, o desconforto cresceu com a anulação, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), das sentenças condenatórias contra Lula da Silva. Descia pelo ralo o discurso que alimentou a mídia comercial durante o tempo de exaltação da malsinada operação Lava Jato. O referido cidadão entrou em transe, deixou de refletir sobre coisas que mexiam com os nervos. Para preservar a relação, dispôs-se mutilar a dimensão política de sua (nossa) existência e garantir o convívio em áreas de lazer com temas não-conflitivos. Raciocinava como o consumidor que vai ao supermercado e, nas gôndolas, escolhe os produtos que desejadescartando os restantes. Pretende o mesmo com as amizades que desfruta. Recusa-se querelar e soçobrar “por causa de política”.

Há duas maneiras de interpretá-lo. Uma: “Gostaria que fosse ao meu aniversário, mas não levasse posições políticas, o que pensa sobre a ciência, o conhecimento, as artes, as desigualdades atávicas, a crise econômica. Não use as expressões ‘fascismo político‘ (Bolsonaro & familiciana) ou ‘fascismo social’ (Guedes & banqueiros). Casa de ferreiro, espeto de pau. Chegue com assuntos leves sobre o tempo, as séries na TV e o vinho”. Outra, ainda: “Lembre-se, nos anos 60, todas as dimensões da vida pública (ideologia, racismo, invasão do Vietnam, The Beatles) ou da vida privada (choque geracional, diferença de gênero, amor, amizade) foram politizadas. Empoderou-se os jovens, as mulheres, o sexo, os laços íntimos. Se aprendemos algo com a revolução sessentista, é preciso salvaguardar o círculo dos afetos próximos e miniaturizar o demais naquilo que for possível”.

É o que depreende-se das fotos de longa distância tiradas da Apollo 17, em 1972, a 29 mil km de altitude, que mudaram a escala da vida humana e da Terra. A miniaturização ensinou-nos a calçar as chinelas da humildade ao visualizar: “Uma pequena esfera girando em um universo infinito”. O encontro com o coronavírus oferece mais uma experiência de miniaturização. “Em face dessa forte imagem de comunidade global, os conflitos, as diferenças e as divergências surgem obrigatoriamente relativizados”, nas sábias palavras de Boaventura de Sousa Santos (O Futuro Começa Agora, 2021). Com efeito.

Ao evitar ser confrontado com a pornocracia presidencial, o verdeamarelismo da dependência consentida, o autoritarismo, a retirada de direitos dos trabalhadores no genocídio pandêmico, meu amigo já estava cônscio de que o sonho de uma sociedade de mercado, com o povo eclipsado, ruíra com a corajosa deliberação do STF. Continuou a crer na distopia de um mundo onde não existam demandas sociais e trabalhistas para tirar o sono das elites. Como sói acontecer em situações de depressão, correu a procurar um culpado (o Judiciário), um inocente (o juiz Sérgio Moro) e a reclamar das condições do gramado (o país) e do comportamento da torcida adversária (os antifascistas). O que causa espanto é a bipolaridade: admirava na Europa central o que não queria realizado no Brasil.

– Jair Bolsonaro

Assisti a uma live na noite do histórico anúncio da alforria que garantiu eleições livres no ano de 2022, depois da pantomima de 2018, onde Bolsonaro com ar désolé convidava os telespectadores a imaginarem os ministros que Lula indicaria na Presidência, dando certa a derrota para o petista no pleito vindouro. Patético, o genocida sugeria a comparação com os seus ministros (sic). Compreendi o incurável delírio psicótico da grotesca personagem que, não obstante, amealhou 57 milhões de votos alienantes ao se eleger presidente.

O psicopata (condutopata, para poupar explicações abstratas) é incapaz de metabolizar o mínimo de autocrítica e arrependimento no criminoso e vergonhoso desgoverno que protagoniza perante o planeta. Formula paralelos terraplanistas. Derrama lágrimas de crocodilo na defensiva. Se tomasse a vacina chinocomunista, seriam de jacaré.

What? Então “O Pior Chanceler do Mundo” segundo o historiador da Brown Unversity, André Pagliarini (Jacobin, março 2019), é melhor do que “O Melhor Chanceler do Mundo” conforme o especialista em Relações Internacionais, Daniel Rothkopf (Foreign Policy, outubro 2009)? Um representante dos desmatadores ilegais da Amazônia é melhor no Ministério do Meio Ambiente? Um pastor prebisteriano que não respeita a autonomia universitária na escolha do reitor é melhor no Ministério da Educação?…

O pária afirmou que só levanta da cadeira ungida no Palácio do Planalto, morto. Não aceita ser retirado do poder pelo expediente de um impeachment. Esqueceu que gestos grandiosos exigem a estatura de um Salvador Allende ou de um Getúlio Vargas. Folhas de serviços à civilização que, aquele, não tem. Nunca passou de um sabujo ignorante lambe-botas de militares e serviçal das finanças. Ovelha não é para mato, reza o ditado. E o esprit de gado é para desfiles puxados pela Rede Globo. “Mito”, apenas no cercadinho, sinhozinho.

– Deltan Dallagnol

Na manhã seguinte (16/04) deparei com o muxoxo do procurador Deltan Dallagnol, o homem que queria controlar R$ 2,5 bilhões sequestrados da Petrobrás pelos Estados Unidos e repatriados por um acordo da Lava Jato com o Departamento de Justiça estadunidense. Dallagnol acordou deplorando a data libertadora em que a Justiça brasileira disse “Presente!” Com certeza, discutiu em pequeno grupo o mau humor. Acusou de forma grosseira, com desfaçatez moral e ausência de discernimento intelectual, instituições que sustentam a República, por extensão, a Constituição de 1988. De novo, conferindo foro de prova material a suposições de mentes obtusas e vaidosas. O moço não aprende.

Dói ver o Ministério Público, pelo qual a esquerda se bateu na Constituinte para tornar órgão de Estado, calar-se por cacoete corporativo frente aos despautérios de um membro cuja entrada na instituição carrega a marca da ilegalidade: prestou concurso antes de cumprir o período de advocacia após a formatura. Inevitável supor que os altos salários e os privilégios que carimbam a carreira reforçam o corporativismo. Para Pierre Bourdieu, o destino seria impulsionado pelo habitus de condicionamentos duráveis, capacidades treinadas e propensões estruturadas. O hábito do cachimbo entorta a boca.

No que concerne em específico ao procurador há um ingrediente en plus. Em filosofia, a atitude subjetiva que implica enganar outrem, sem que este perceba, denomina-se “hipocrisia”. A atitude que deixa, de forma proposital, a vítima perceber que está sendo enganada chama-se “cinismo”. Dallagnol foi cínico ao apresentar o Power Point que situou Lula no epicentro de uma Organização Criminosa (ORC). A parte desintoxicada da nação, contudo, tinha ideia da mentira engendrada por interesses geopolíticos dos EUA nos porões ímprobos do voluntarismo e da traição nacional (Le Monde, 11/04/2021).

O Savonarola de Curitiba também tinha: “Falarão que estamos acusando com base em notícia de jornal e indícios frágeis… até agora tenho receio da história do apartamento” (Intercept, 09/06/2019). Os escrúpulos de consciência não impediram-no de, ele sim, fazer parte de uma monstruosa construção do Mal com tentáculos em agentes, de opaca biografia, no aparelho estatal. Como Cleópatra, que mandou tirar os olhos do mensageiro que trouxe a notícia de que Antônio havia casado com Otávia, irmã de Otávio César, Dallagnol gostaria de cegar a História. E manipular ad eternum a opinião pública. Não levou.

– À guisa de conclusão

No três casos acha-se um misto de sentimento de tristeza, raiva e resignação semelhante ao que sofre um torcedor de futebol depois de perder um clássico:

a) O primeiro demonstrou o quanto o clima de ódio destilado pelo fascismo, com corte político e/ou econômico, impacta o circuito social inclusive no campo dos afetos;

b) O segundo, como nas gravuras de desdém à nobreza e ao clero na Espanha em fins do século XVIII, intituladas “Los Caprichos”, de Goya, deixou claro que “el sueño de la razón produce monstruos”. Os sonhos anti-Lula e anti-PT, que hibernavam no esgoto do inconsciente coletivo, fabricou centenas de milhares de óbitos desnecessários;

c) O terceiro revelou que o Estado de Direito através do emprego intensivo do lawfare, isto é, de manobras jurídico-legais como armas em substituição à força armada, pode ser utilizado para alcançar objetivos político-ideológicos com total descaramento.

Registre-se a reação dos meios de comunicação no Day After da extrema-direita, que significou a derrocada da narrativa que estigmatizava Lula e o PT. A Folha de S. Paulo deu em manchete: “STF mantém decisão de Fachin e deixa Lula apto para eleição.” O Estado de S. Paulo: “STF anula condenações da Lava Jato e torna Lula elegível.” O Globo: “STF confirma anulação das condenações de Lula.” A Veja pôs a foto de Lula e a legenda: “De volta ao jogo”. A nota destoante ficou com o provincianismo de periódicos que reagiram com rancor. Omitiram a notícia mais relevante da política nacional em cinco anos, e agouraram: “A pior eleição de todos os tempos vem aí”. Para quem, cara pálida?!

Em nível internacional, a agência de notícias Reuters destacou o retorno do peão de fábrica ao tabuleiro da grande política, tendo a matéria sido replicada por mais de 2.800 publicações além fronteiras. O britânico The Times sintetizou: “O fim da maior mentira judicial já contada em 500 anos de história do Brasil.” Enquanto a Bloomberg salientou: “A popularidade do ex-presidente que está na dianteira das pesquisas eleitorais”. A agência AFP repercutiu a comemoração da presidenta do PT e retransmitiu os agradecimentos: Aos lutadores sociais que sempre estiveram com Lula. Parabéns Lula!”.

Entre as personalidades que se manifestaram, estava o deputado Jean-Luc Mélenchon, líder do partido França Insubmissa, que expressou “imensa alegria” por Lula ter retomado os direitos políticos: “O juiz ladrão Moro foi repudiado pela Suprema Corte do Brasil. Lula livre e elegível.” O presidente da Argentina, Alberto Fernández celebrou: “A Justiça brasileira deu uma lição demonstrando sua capacidade de se reexaminar e decidir com autonomia… Ambos sonhamos com a América Latina unida, que luta neste momento contra o flagelo da pandemia.” A caminhada recém começou! Estamos todos juntos!

  • Luiz Marques é professor de Ciência Política, UFRGS

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