1.
“A batalha das elites brasileiras é pela conquista das coisas de rico. Parte da certeza de que as riquezas e os privilégios estão à disposição. Mas só conquistadores têm coragem e habilidades suficientes para chegar lá antes dos demais. Eis o tema central de sua vida”, diz o antropólogo carioca Michel Alcoforado, em Coisa de rico: a vida dos endinheirados brasileiros.

Elites políticas da direita e do extremo imitam o comportamento dos nouveaux riches para ostentar um padrão de consumo superior à média da população. Sobre as relações secretas do controlador do Banco Master Daniel Vorcaro com o senador Ciro Nogueira, presidente do Partido Progressista (PP) e fiel despachante de escusos interesses do banqueiro trambiqueiro – no Projeto de Emenda Constitucional (PEC) para quadruplicar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) – o noticiário ornamenta em detalhes a tese exposta no primeiro parágrafo.
O relatório da Polícia Federal aponta o pagamento de diárias para Nogueira em hotéis luxuosos, uso regular de aviões privados, cartão de crédito vinculado a Vorcaro para despesas pessoais e gastos em lojas de grife no Brasil, Nova York e Paris, além de uma mansão de 878 m² no valor de R$ 30 milhões no Jardim Europa – um dos bairros mais prestigiados da cidade de São Paulo. A localização destacada e o estilo de moradia promovem o status e uma divisória entre os “de dentro” e os “de fora”.
Já o senador Flávio Bolsonaro do Partido Liberal (PL), em 2021, compra por R$ 6 milhões a mansão com 1.100 m² de área construída num terreno de 2.400 m², em zona nobre de Brasília, sem comprovante de renda. A propriedade tem acabamentos em mármore carrara e crema marfil, quatro suítes, hidromassagem, spa com aquecimento solar, academia, brinquedoteca e vagas para oito carros na garagem com dependências para os empregados e o motorista. Entende-se que o 01 considere em sua chapa suja à Presidência o ex-ministro do inelegível um “vice ideal”. O peixe morre pela boca na pescaria do óbvio ululante.
Chama atenção a normalização do alpinismo social no âmbito da política para enriquecimento rápido. As “emendas parlamentares impositivas” sequestram 25% do Orçamento da União com tal fim. Ocorre que em regra os personagens do enredo não saem ilesos de uma análise minuciosa de seus símbolos financeiros (salários, bens, patrimônio, padrão de consumo) e signos de poder (tamanho da empresa, número de subalternos, cargos, títulos) que medem com uma régua a posição na sociedade.
Em um ambiente de desigualdades gigantes, a ostentação cobra uma vigilância pelos órgãos de fiscalização para que a fortuna exibida tenha imposto correspondente, junto à Receita Federal. Do contrário, afora a sonegação tributária e o dinheiro oculto em paraísos fiscais, uma ascensão somente se justifica por práticas ilegais no jogo teatral dos nababos que carregam um sinal de identificação funcional na lapela – um broche com o brasão da República ou o logotipo do Congresso Nacional.
2.
Para Teresa Caldeira, professora da Universidade da Califórnia, em Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo, endinheirados organizam trincheiras em condomínios fechados. “Impõem separações, constroem muros, delineiam e encerram espaços, estabelecem distâncias, regras de exclusão, de evitação, restringem o movimento. Os enclaves fortificados enfatizam o valor do que é privado e restrito, e em simultâneo desvalorizam o que é público e aberto na cidade”. De um lado, está o desejo; de outro, a sedução para o mal.
Os políticos do luxo procuram com muita ansiedade se situar no contexto dos mais ricos pelos meios que julgam mais acessíveis, ainda que implique vender a alma ao diabo para ascender no pacto fáustico. Enganar o povo e integrar de forma orgânica a trupe dos que não vacilam em se locupletar em esquemas de corrupção é seu mestrado, na posse de um mandato. Assim, se enchem de coragem ao bater à porta do clube da riqueza na esperança de ingressar em um alvissareiro círculo de amizades e conluios.
Que seu enorme patrimônio é incompatível com os rendimentos declarados, até as pedras sabem. Aqui, importa apenas frisar o afã obsessivo de usufruir as coisas de rico. É o caso do ex-presidente genocida ao mobilizar o governo com o intuito de se apropriar furtivamente de bens valiosos – as joias sauditas pertencentes à nação. Nada que, de soslaio, sobrenomes ilustres não fizessem em priscas eras na acumulação primitiva de capital.
Em comum, os estreantes compartilham com os veteranos um antiintelectualismo. Não leem livros, frequentam restaurantes pela fama do chef, adquirem obras de arte por metro e, em conselhos de museus, aprofundam a rede de relações para induzir a ilusão de que são ungidos pela Providência. As diferenças entre os ricos hereditários e os emergentes se resumem à camada de verniz. Os tipos que, no palco da política ou da economia, tateiam atalhos para chegar ao pódio se parecem e se merecem.
O percurso para metamorfose social se divide em três etapas: a busca por zerar o passado; a invenção do novo eu; a batalha por pertencimento. Para entrar no reino encantado, aspirantes devem ser admitidos como sócios no mundo dos ricos. O convívio na piscina e bares ajuda a internalizar os códigos de etiqueta social dos iniciados. Mas, escancaradas, a vassalagem e as rachadinhas com o dinheiro público revelam hábitos do submundo. Abalam as salvaguardas das instituições. Por isso, gigolôs e chantagistas jamais recebem convites para o jantar burguês.
Há também que fantasiar as origens para maquiar as aparências com a “nostalgia imaginada”. As coisas de rico não bastam para a aceitação como iguais nas altas rodas. Ciro Nogueira e Flávio Bolsonaro têm o passado preso às páginas policiais. Segundo o psicólogo na obra de ficção científica de H. G. Wells, A máquina do tempo, a qual gera uma literatura de viagem: “Essa é a grande dificuldade. Podemos nos mover em todas as direções do espaço, mas não podemos fazer o mesmo no tempo”. Se a história expõe as vilanias, nossa memória arma a democracia.
Luiz Marques é Docente de Ciência Política na UFRGS; ex-Secretário de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul.