A vitória épica de Lula para o quarto mandato

A máxima “nunca antes na história deste país..” associa-se mais uma vez à imagem do presidente Lula,depois da virada espetacular obtida no segundo turno das eleições brasileiras. Lula conquista o quarto mandato presidencial com 64 milhões de votos, num processo eleitoral difícil, marcado pela interferência externa, principalmente pelas Big Techs, e pelo escancarado abuso do poder econômico e político de seus adversários.

Foto: Ricardo Stuckert

Lula terminou o primeiro turno com 2 milhões de votos atrás de Flávio Bolsonaro. E venceu as eleições com uma diferença de 4,4 milhões. Sua votação cresceu em todos os estados brasileiros, incluindo uma virada em Minas Gerais, onde venceu no segundo turno. É impossível falar desta vitória, que com certeza marcará nossas vidas, sem prestar alguns tributos.

A lição de vida dos 70+

No Brasil, depois dos 70 anos de idade, o voto deixa de ser obrigatório.Mas neste segundo turno, UM grande número de pessoas – que já não votavam a bastante tempo – saíram de suas casas para ajudar a salvar a democracia. Pipocam nas redes sociais vídeos e depoimentos de eleitores com mais de 90 anos que fizeram questão de dar seu voto ao Lula. Nossos “veteranos” nos deram uma grande lição de vida, de consciência cívica e, sem dúvida, de amor ao próximo.

A contribuição dos artistas

Das lágrimas de Caetano Veloso, no ato em Copacabana, à atriz Leandra Leal panfletando nas ruas; da série Revelando aos corajosos posicionamentos nas redes sociais, os artistas brasileiros não faltam ao Brasil. Não foram poucos os que iniciaram seus vídeos dizendo: “eu nunca me posicionei numa eleição, mas me senti no dever…”.  Cantores, cantoras, atrizes, atores, humoristas enfrentaram todo o ódio nas redes sociais e se transformam em ativistas digitais pela eleição de Lula.

A coragem dos influencers

Eles não titubearam quando perderam milhares de seguidores da noite para o dia porque ousam se posicionar a favor de Lula e da democracia. Mesmo que perder seguidores acarreta diretamente em contratos de publicidade e, consequentemente, na sua renda. Disputaram o voto junto aos seus públicos e fizeram das suas redes um espaço de esclarecimento ao público, diante de tantas Fake News que circularam na campanha.

A superação das distâncias

Todo meio de transporte foi válido neste segundo turno: avião, ônibus, carro, barco e bicicleta. Foi lindo ver pessoas saindo de diferentes países do mundo para votar no Lula neste segundo turno. Foi emocionante ver as pessoas lotando rodoviárias, barcos, cruzando milhares de quilômetros de estradas, para garantir o voto que poderia fazer toda a diferença. As caronas solidárias, as vaquinhas para fretar ônibus ou ajudar a comprar uma passagem aérea são alguns dos acontecimentos que marcaram positivamente este segundo turno.

O Exército Digital

Quando imaginamos que estaríamos organizados em um canal de whatsapp com 10 milhões de pessoas, atuando de forma sintonizada nas redes sociais? O deputado federal André Janones cumpriu um papel fundamental de mobilização digital da campanha Lula. O bordão “pessoal, urgente” vai ficar gravado na memória destes 10 milhões. Mas é preciso reconhecer, ainda, as redes orgânicas do Pode Espalhar, formada por militantes que atuam o ano inteiro, cumprindo um papel de informar sobre as realizações do governo Lula,mas, também, sobre os grandes temas que estiveram no embate político.

A rapaziada

Dos eleitos Guilherme Cortez, Pedro Rousseff, à campeã de votos, a deputada eleita Ana Elisa (MG), a juventude tomou as ruas neste segundo turno e foi protagonista dos atos em diversas cidades brasileiras. Passado o primeiro turno, os estudantes universitários foram os primeiros a organizar atos e atividades em defesa da educação pública. As juventudes construíram um grande engajamento nas ruas, com posicionamento político, apontando para uma grande renovação geracional da esquerda brasileira.

Trabalhadores

Uma massa trabalhadora se movimentou para votar em Lula. Este segundo turno evidenciou a disputa de classes, embalada pela votação do fim da escala 6X1, pelo debate da redução da jornada de trabalho e da valorização do salário mínimo. Finalmente, o corte no orçamento foi traduzido de forma didática para uma massa operária que depende do SUS, do transporte público, da escola pública e das políticas sociais de inclusão, como o Bolsa Família e o Pé de Meia.

O voto das mulheres

As mulheres votaram majoritariamente em Lula. Porque elas, melhor do que ninguém, sabem a importância dos serviços públicos nas suas vidas. São elas que, via de regra, levam os filhos para a creche, para a escola, para a vacinação na UBS, ou ao médico quando estão doentes. São elas as vítimas da violência doméstica, da violência urbana que mata crianças como a pequena Ana Clara. No segundo turno, as mulheres protagonizaram atos e caminhadas em várias capitais brasileiras, mostrando que esta eleição era, essencialmente, sobre a vida das mulheres.

Democratas e nacionalistas

O movimento que tomou as redes, nos últimos dias de campanha, intitulado Direita e Esquerda contra o Bolsonarismo, reuniu um conjunto de figuras públicas, políticos e profissionais que não são nem petistas nem lulistas, mas que compreenderam que a verdadeira disputa era pela permanência da democracia no Brasil.  Esta movimentação incluiu até mesmo ex-aliados de Jair Bolsonaro, inconformados com o caráter entreguista da família Bolsonaro na relação com os EUA. 

E teve mais

Advogados, professores universitários, sambistas, torcidas de futebol, católicos, evangélicos, umbandistas, surfistas, ciclistas, marotonistas e tantos outros coletivos organizaram uma campanha focal em apoio a Lula no segundo turno. Em comum, todos os grupos citados ao longo deste texto, tem como marca a organização espontânea, o trabalho voluntário, um chamado público que ecoou sem disputas de vaidade. O centro da ação era somar e multiplicar. 

Marina Silva disse, durante o primeiro turno, que a forma como se ganha determina a forma como se governa. Lula venceu com a participação popular, com a força das ruas e das redes. No seu discurso da vitória garantiu: “vamos mudar o jeito como se governa este país”. Com um Congresso majoritariamente conservador, Lula terá que construir a legitimidade das ações de governo através da participação popular. O Brasil do quarto mandato do presidente Lula precisa ser o Brasil da Democracia Participativa.

Eliane Silveira é Jornalista e Licenciada em Ciências Sociais.

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