“O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” – João Guimarães Rosa.

1.
No conto roseano, “Famigerado”, incluído na coletânea Primeiras estórias (1962), lê-se o relato sobre cavaleiros com cara de poucos amigos ao chegar em uma casa, no meio do sertão. Não parecem amistosos; não descem dos cavalos.
O líder da expedição é “Damázio, quem dele não ouvira? O feroz de estórias de léguas, com dezenas de carregadas mortes, homem perigosíssimo”. Procura o significado de uma palavra proferida por um agente do governo. Está encucado.
“Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmigerado… faz-me-gerado… falmisgeraldo… familhas-gerado…?” Irrita-se.
“Vosmecê declare. Estes aí, são de nada não. São da Serra. Só vieram comigo, por testemunho…” A missão do cortejo é divulgar uma acepção correta do termo.
“O homem queria estrito o caroço: o verivérbio.” A verdade, fosse qual fosse.
“Famigerado?” Sim senhor… – e, repetiu, vezes, o termo, enfim nos vermelhões da raiva, sua voz fora de foco. E me olhava, interpelador, intimativo. Apertava-me.”
“– Famigerado? Habitei preâmbulos.” O espírito interrogado tateava no escuro.
Com jeito, foi em frente. “- Famigerado é inóxio, é ‘célebre’, ‘notório’, ‘notável’…”
“-Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mas me diga: é desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?”
“-Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros usos…”
“- Pois… e o que é, em fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana? Agora se me faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: o que é que é, o que já lhe perguntei”.
Flávio Bolsonaro, ao fechar o primeiro turno, se imaginava vencedor da contenda presidencial. buscou a resposta nos escritórios da avenida Brigadeiro Faria Lima, as Bets, as Big Techs, os megavarejistas e o agronegócio – o que é famigerado. O preferido dos progressistas para enfrentar? As urnas cobravam satisfação pelo menosprezo de sua serventia ao sistema. O Pai total tinha razão!?
2.
“Famigerado? Bem. É: importante, que merece louvor, respeito…”
“- Vosmecê agarante, pra a paz das mães, mão na Escritura?”
“Se certo! Era para se empenhar a barba. Então eu sincero disse: – Olhe: eu, como o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas era ser famigerado, bem famigerado o mais que pudesse!”
Damázio sorriu. Apagara-se-lhe a inquietação: “- Não há como as grandezas machas duma pessoa instruída”. Com essa tal “grandeza macha” seu espectro posiciona-se contrário à licença maternidade, no Rio de Janeiro..
“Agradeceu, quis me apertar a mão. Outra vez, aceitaria de entrar em minha casa. Oh, pois. Esporou, foi-se o alazão, não pensava no que o trouxera, tese para alto rir, e mais, o famoso assunto”. Viajou se achando Napoleão, na Ilha de Santa Helena.
Por prudência e educação se alguém agiu conforme aconselha um dramaturgo – para evitar o clima pesado nas relações sociais – foi a mídia corporativa. A Globo nunca teve a coragem e a decência de dizer a verdade sobre o miliciano. Nem pela frente, nem pelas costas. Antes, normalizou o fascismo no Estado de direito.
Quem defendeu a democracia do risco iminente que o país corria foi o altivo povo brasileiro, mobilizado para o triunfo lulista, que leva esperança ao mundo.
Com o figurino do ladrão em novelas policiais de quinta categoria, o primogênito da famiglia abraça-se ao irmão traidor da pátria na lata de lixo da história. Saindo pelos fundos, chega sem glória por temer as investigações em curso na Polícia Federal de corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas. Seus talentos para o ilegal e o imoral são conhecidos. O juízo penal está a caminho.
A queda da Bolsa de Valores após o colapso nas ruas, nas redes sociais e nas indevassáveis urnas escancara os amigos com quem o sinhozinho sempre andou, na marcha para o retrocesso civilizatório no Brasil.
No sentido popular, “famigerado” significa aquele que desfruta de má reputação ou má fama, mal afamado, de conceito ruim e caráter pior. Destino: prisão.
A nação inicia uma nova história, em 5 de janeiro. Lula e Alckmin não vão sós. Juntos vão a luta e a multidão. Todos e todas de mãos com o futuro.
Luiz Marques é Docente de Ciência Política na UFGRS; ex-Secretário de Estado da Cultura / RS.