Lula 4 e a vitória da juventude brasileira: o que ela tem a dizer?

A vitória eleitoral democrática do dia 25 de outubro sem dúvida nenhuma representa uma das maiores vitórias do período histórico para o nosso campo da disputa política e social brasileira. Ainda, se tornou exemplo para as esquerdas e campos democráticos do mundo inteiro no desafio civilizatório de enfrentamento ao programa ultraneoliberal, conservador e anti civilizatório que vem avançando de forma acelerada nas disputas de países por todo o globo.

Foto: Ricardo Stuckert

Impulsionada pela liderança do Trumpismo Estadunidense, a extrema direita produziu nos últimos anos vitórias eleitorais em países do norte ao sul global, com graus diferentes de intervenção norte-americana em processos internos. Na América Latina, a política neocolonial da Casa Branca é dita em alto e bom som pelo Secretário de Estado Marco Rubio, que prometeu retomar o poder dos EUA sob os latinos subalternos em uma espécie de Doutrina Monroe atualizada para tempos neoliberais.

Com Miley na Argentina, Noboa no Equador e Peña no Paraguai, o governo Trump e sua coalizão de bilionários influenciaram as vitórias em El Salvador, na Bolívia, no Chile e, mais recentemente, foram fundamentais para a eleição do candidato do narcotráfico na Colômbia, Abelardo de la Espriella, e da herdeira dos tempos ditatoriais no Peru, Keiko Fujimori. Todas essas com participação importante de jovens que estão em constante disputa.

Na Venezuela e em Cuba, o uso da força com requintes de crueldade foram e continuam sendo brutais e explícitos, em uma ofensiva de dimensões nunca antes vistas após os períodos ditatoriais civil-militares nas Américas. Todas as experiências eleitorais recentes das Américas e mesmo em diversos países do mundo – com a exceção positiva do México, Uruguai e Brasil – vinham sendo de vitórias da extrema direita com apoio direto dos EUA.

Nesse sentido, as eleições de 2026 foram permeadas por essa tendência mundial de avanço do neofascismo de programa ultraneoliberal com apoio sistemático das forças do capital financeiro e das bigtechs na construção e manipulação da opinião pública.

De maneira estratégica, os Estados Unidos e o governo Trump miravam no Brasil como mais um território a ser conquistado na grande missão geopolítica empreitada com o objetivo de retomar sua hegemonia econômica global. Os recursos estratégicos naturais brasileiros, desde as terras raras até uma das maiores reservas de água potável do planeta, eram a peça de acordo entre a família Bolsonaro e a cúpula da inteligência americana.

Negociaram, para garantir o apoio das big techs e de Trump, tudo que era nosso, junto também dos nossos sonhos. O programa entoado por Flávio Bolsonaro era tudo o que esse bloco histórico reivindicava para potencializar suas formas de exploração do Brasil, tanto do ponto de vista dos nossos recursos, de um profundo entreguismo, quanto do ponto de vista da regressão máxima nas condições de vida da maioria do povo e dos trabalhadores, com a diminuição do investimento público em direitos e políticas sociais.

Com esse apoio sistemático, sem que o nosso campo ainda tivesse enxergado de forma mais pública e organizada essa intervenção, o resultado do primeiro turno no Brasil acendeu uma luz de alerta máximo e refletiu a tendência internacional de avanço da força da extrema direita. A vitória animou o campo de lá, que já radicalizou no seu discurso, com Flávio Bolsonaro afirmando a pretensão de fazer mudanças constitucionais com a maioria que elegeram na Câmara e Senado, e de produzir uma forte política de arrocho fiscal e redução de programas sociais com o chamado “tesouraço”.

O alerta para as juventudes foi quase instantâneo. No dia seguinte ao resultado do primeiro turno, estudantes da UFF de Niterói mobilizaram milhares para as ruas, o que iniciou uma onda de mobilizações incentivadas pela UNE e organizações juvenis (com destaque para os Fandons) de todo País, naquela mesma semana, com participação decisiva e massiva de jovens, organizados, mas também, em ampla maioria, não organizados em nenhum movimento social tradicional.

A direção de juventude foi expressiva em todas as mobilizações, que ganharam dimensões históricas ao longo do processo. A cada nova convocação, as proporções aumentavam, o que tornaram elas as maiores mobilizações populares já vistas em toda a história do país, com hegemonia explícita do campo da esquerda.

Junto das ruas, a disputa digital também foi invadida pelo sentimento coletivo de enfrentamento à ameaça neofascista e seu programa regressivo. Com menos conhecimento das esquerdas sobre as ferramentas das redes sociais e suas plataformas privadas (big techs), as juventudes também engajaram-se em estratégias coletivas de mobilização digital e puxaram para cima nosso campo.

Com uma renovação importante nas bancadas da esquerda, a tônica da mudança da presença da campanha de Lula nas redes foi perceptível após a reunião com parlamentares jovens que se elegeram com votações expressivas. Além disso, junto da estratégia digital do canal “exército do Lula”, esse engajamento tornou possível abrir um novo momento da disputa com o chamado “algoritmo” das redes sociais.

Mesmo com operações deliberadas de aumento do alcance dos conteúdos da extrema-direita – como os casos escandalosos das redes de Nikolas Ferreira ultrapassarem visualizações de astros de futebol e artistas pops internacionais – a campanha Lula superou todas as metragens de inserção e presença nas redes digitais, em uma mobilização coletiva nunca antes vista no nosso campo.

O protagonismo juvenil, perceptível pelas “caras” de lideranças, perfis e “influencers” jovens, chamou para si a tarefa de invadir as redes na disputa política mais importante da sua geração. Foi um movimento de verdadeiro protagonismo para apontar à campanha onde estava sua principal lacuna, mostrando que os caminhos eram exatamente os de mais diálogo sobre futuro para as novas gerações. A linguagem para acesso às redes demandou, necessariamente, o formato de engajamento juvenil, para que fosse possível o crescimento exponencial da campanha, impulsionando uma agenda mais de futuro do que exclusivamente de legado.

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Guilherme Barbosa é Diretor na Secretaria Nacional de Juventude do Governo Lula.

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