Golpe de 1964: Podcast revela capital que financiou ditadura militar

Na estreia da segunda temporada, Passado Leiloado, do podcast Perdas e Danos, o episódio “Relógio Suíço” mergulha em arquivos diplomáticos e financeiros para buscar o caminho do dinheiro e os financiamentos internacionais que sustentaram o regime militar.

Há 62 anos o Brasil enfrentou um golpe militar que depôs o então presidente João Goulart e mudou os rumos do país. Agora este trabalho mostra quem se beneficiou financeiramente com a ditadura militar, que, além de retirar direitos civis, censurar, torturar e perseguir, também gerou lucros e endividou o país.

Por meio das pesquisas da cientista política Gabriella Lima e da historiadora Gaelle Schlier  e de análises do jurista Marcelo Torelly, o episódio detalha como, nos anos 70, a Suíça consolidou-se como o terceiro maior investidor no Brasil, com um investimento per capita oito vezes superior ao da Alemanha.

 A investigação desmistifica a imagem de “país neutro” da Suíça, revelando sua posição como um dos pilares econômicos do regime de exceção no Brasil.

Documentos e entrevistas da época, como a do empresário Anton Von Salis, revelam que as multinacionais suíças buscavam a chamada “paz social” — um eufemismo para a criminalização de sindicatos, arrocho salarial e a garantia de que não haveria greves. “O Estado brasileiro se endivida para alavancar o setor privado, e quem paga a conta depois é a sociedade”, explica Torelly no episódio.

Nós entramos em contato com o governo suíço por meio da embaixada no Brasil para entender como o país vê, hoje, o que aconteceu no passado.

Por escrito, a Suíça respondeu que “uma resposta detalhada exigiria análises que não são possíveis no âmbito da administração federal suíça, pois demandam pesquisas históricas aprofundadas”. Mas disse que “saúda” a realização de estudos independentes e que esse tipo de trabalho contribui para compreender o passado e promover o debate.

Confira: Resposta completa da Embaixada da Suíça

O podcast relembra os sequestros de embaixadores e conta como o sequestro do chanceler suíço Giovanni Bucher, em 1970, foi, para além de uma ação política, um movimento estratégico que expôs a colaboração internacional ao regime ditatorial.

A troca de Bucher pela liberdade de 70 presos políticos — entre eles o estudante Jean Marc Von der Weid — tornou-se um divisor de águas. Ao chegar ao Chile e, posteriormente, à Europa, Jean Marc usou sua dupla nacionalidade e seu “passaporte da liberdade” para furar o bloqueio de informações da ditadura, denunciando em redes de TV internacionais os métodos de tortura utilizados nos centros de repressão no Brasil.

Com áudios originais de rádio, trilhas de época e depoimentos históricos, Perdas e Danos propõe uma revisão da história brasileira. O episódio não foca naqueles que assinavam os cheques e financiavam o aparato de repressão e as grandes obras de infraestrutura, como a Ponte Rio-Niterói e a Hidrelétrica de Itaipu, sob condições que amarravam o crédito à importação de insumos suíços.

Ao “seguir o dinheiro”, o podcast revela que o Milagre Econômico não foi apenas um fenômeno interno, mas um projeto de lucro internacional que prosperou com a violação de direitos humanos.

Continue conosco e acompanhe esta segunda temporada. Com cinco episódios que investigam uma faceta do regime militar que muitas vezes fica à sombra da violência política: o lucro.

Eliane Gonçalves e Sumaia Villela

Via Rádio Agência / Agência Brasil

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