O México é um prato cheio – de cores, sabores, saberes – para quem gosta ou quer escrever

Dentre as várias viagens há “A Viagem” (maiúsculo) que se destaca entre tantas outras minúsculas. Tanto uma como a outra podem gerar artigos, crônicas e livros, como México, história duma viagem, Erico Veríssimo, La Paz Existe? Osman Lins e Julieta Godoy de Ladeira e Americanidade e Latinidade da América Latina e Outros Textos Afins, Gilberto Freyre.
O México é um prato cheio – de cores, sabores, saberes – para quem gosta ou quer escrever. Como também é um prato cheio para expor o tamanho da própria ignorância, e digo, não precisei de muita coisa para constatar o tamanho da minha, bastou uma visita ao Museu de Antropologia da Cidade do México.
Antes de cair na “estrada” procuro minimamente me informar sobre os pontos turísticos por onde vou passar/passear e também leio um pouco da história e da cultura do país. Estes critérios me levaram à Morelos, estado onde nasceu Emiliano Zapata, cuja capital é Cuernavaca. Aqui também que Hernan Cortés construiu uma de suas residências.
Em 1526 Cortés mandou construir um palácio no local onde hoje é a Cidade de Cuernavaca. O objetivo não era somente residencial, mas sim a ocupação do território e demonstração de poder e dominação, tanto que a primeira ordem foi que a Casa fosse construída em cima de um assentamento indígena tlahuica, cujo povo habitava a região.
Nos museus do México há uma grande quantidade de peças e informações sobre as civilizações que aí viviam antes da chegada dos cristãos isabelinos acompanhados dos torquemadas. O Museu Regional dos Povos de Morelos, localizado na antiga “Casa” de Cortés não é diferente, tem vários artefatos do período pré-hispânico e colonial sendo um local de visita obrigatória para conhecer um pouco a história do “conquistador” espanhol.
Não só nos museus, mas em grande parte dos livros de história do México, Hernan Cortés e aqueles que com ele vieram e os que chegaram posteriormente de Espanha são chamados de conquistadores.
Para mim é inconcebível chamar de conquistador quem na realidade era invasor. Invadiu territórios, destruiu culturas, escravizou e matou os povos originários.
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No dia da visita, no pátio do Museu havia uma “Feira Verde” onde vendiam vários produtos retirados da terra e entre eles folhas, frutos e raízes de plantas para fazer chás para tratar várias enfermidades.
Os produtos estavam dentro de envelopes pardos onde identificava o que continham e para que eram indicados: analgésico para dores na coluna, tratamento de diabetes, cura de feridas e tantos outros como para tratar a hipertrofia da próstata.
Interessei-me –, pois na minha idade é um dos problemas que enfrento – por este último. Peguei e me pus a ler as indicações e a composição e entre estes estava a “cola de caballo” (rabo de cavalo).
Pensei e repensei, de como se faz para usar rabo de cavalo para fazer chá. Não conseguia enxergar outra saída que não perguntar:
– ¿Cómo se hace té con cola de caballo?
Quem me ouviu rio alto, inclusive a moça que me atendia, após alguns segundos, quando o riso cessou, mas com a cara de quem imagina como esse “gringo” (por ser muito branco é assim que sou identificado por muitos no México) é ignorante, me responde:
– Es una planta semejante a una cola de caballo.
Só então entendi a razão do riso.
Que vergonha.
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Por indicação de um moradora da cidade fomos almoçar no Emiliano (Zapata), restaurante popular com os pratos típicos da região. Mesmo lotado conseguimos uma mesa próxima a uma janela que era aberta para a calçada, assim acompanhávamos o movimento da rua e dos transeuntes. De curto em curto tempo alguém parava para olhar para dentro, pedir dinheiro, comida, vender qualquer coisa e até cantar.
Um desses artistas parou com seu violão e cantou duas músicas, diga-se de passagem, agradáveis. Terminado, através da janela estendeu o braço com o chapéu na mão em busca de algumas moedas.
Outras pessoas passaram vendendo doces, balas, lanches, etc. Também chegou por ali um cachorro branco, tomou conta do lugar e permaneceu por cerca de meia hora. Após ter se alimentado foi embora, imagino, já satisfeito.
Ao contrário do cachorro saio insatisfeito, esqueci de falar para não por picante na comida. Apesar da quantidade de água de jamaica que tomei sai cuspindo fogo.
Dr. Rosinha é médico, ex-deputado federal, funcionário do Ministério da Saúde.
Via Jornal Plural