Cuidar é o trabalho que garante que a vida continue acontecendo todos os dias. É preparar comida, limpar a casa, cuidar das crianças, acompanhar pessoas idosas, escutar, apoiar e organizar a rotina da família

Quando falamos em economia e trabalho, muitas vezes esquecemos algo essencial: o cuidado. Cuidar é o trabalho que garante que a vida continue acontecendo todos os dias. É preparar comida, limpar a casa, cuidar das crianças, acompanhar pessoas idosas, escutar, apoiar e organizar a rotina da família.
Essas atividades são fundamentais para o funcionamento da sociedade, mas historicamente foram tratadas como algo “natural”, principalmente quando realizadas por mulheres. Por isso, o trabalho de cuidado muitas vezes se torna invisível: ele sustenta a vida, sustenta a economia, mas raramente é reconhecido, valorizado ou remunerado.
Os dados mostram com clareza essa desigualdade. No mundo, as mulheres realizam cerca de 76% do trabalho de cuidado não remunerado e dedicam, em média, mais de três vezes o tempo que os homens a essas atividades. No Brasil, elas trabalham, em média, 11 horas a mais por semana em tarefas domésticas e de cuidado. E quando há pessoas idosas na família, especialmente com mais de 80 anos, essa carga aumenta ainda mais para as mulheres. Entre as cuidadoras, 67,6% não têm registro em carteira de trabalho, ou seja, não contam com proteção trabalhista e previdenciária.
Também é importante lembrar que esse trabalho tem raça e classe social. No Brasil, grande parte do trabalho de cuidado, especialmente o trabalho doméstico remunerado, é realizado por mulheres negras, muitas vezes em condições precárias e sem direitos.
Por isso, o Brasil deu um passo importante ao reconhecer que o cuidado não pode continuar sendo tratado como um problema privado. A Lei nº 15.069/2024 instituiu a Política Nacional de Cuidados, reconhecendo o cuidado como um direito social e estabelecendo que sua responsabilidade deve ser compartilhada entre Estado, famílias, sociedade civil e setor privado. O plano de implementação da política prevê investimentos de R$ 24,9 bilhões até 2027.
Em Fortaleza, apresentamos o Projeto de Lei nº 147/2025, que institui a Política Municipal de Cuidados. Com essa iniciativa, a cidade pode se tornar a primeira capital do Nordeste a ter uma legislação específica sobre o tema.
Creches em tempo integral, equipamentos para o cuidado de pessoas idosas, restaurantes populares e serviços comunitários são exemplos de políticas que ajudam a redistribuir o trabalho de cuidado, reduzir desigualdades e ampliar a autonomia das mulheres.
Neste mês de março, marcado pela luta das mulheres em todo o mundo, reconhecer o cuidado como trabalho e construir políticas públicas que apoiem quem cuida é um passo fundamental para enfrentar desigualdades históricas. Cuidar é sustentar a vida. E sustentar a vida deve ser responsabilidade de toda a sociedade.
Mari Lacerda é vereadora de Fortaleza pelo PT, mestra em Sociologia (UFC) e militante feminista da Marcha Mundial das Mulheres (MMM).
Via Revista Fórum