O início da guerra dos EUA e Israel contra o Irã não representa uma ruptura histórica, mas o ápice violento de um estado de guerra permanente que Washington e Tel Aviv mantém contra Teerã há décadas. Desde as sanções econômicas que sufocam o povo iraniano, passando pelo assassinato em 2020, pelos EUA, do major-general Qassem Soleimani, chefe da Guarda Revolucionária Islâmica, até as escaramuças de 2025 durante a guerra genocida de Israel contra os palestinos: tudo fazia parte de um mesmo enredo. O que vimos em 28 de fevereiro de 2026 foi apenas o capítulo mais violento desta novela macabra: uma campanha de bombardeios coordenados que atingiu 24 das 31 províncias do Irã, matando mais de 200 pessoas e ferindo mais de 700 outras, segundo o Crescente Vermelho. A operação, num delírio megalomaníaco foi batizada de “Fúria Épica”, mirou não apenas instalações militares, mas o coração político do país.

O início dos ataques buscou um “golpe de decapitação” do regime com o assassinato do Aiatolá Khamenei, numa tentativa explícita de forçar sua mudança, uma espécie de Santo Graal do imperialismo no Oriente Médio. Os ataques começaram às 9h45 da manhã em Teerã, horário calculado para maximizar o terror: era o primeiro dia útil da semana iraniana, com escolas e comércio funcionando. O Irã respondeu com uma retaliação sem precedentes, lançando mísseis contra bases americanas no Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos e Kuwait, além de atingir Israel e fechar o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial. O fogo cruzado já engolia a região.
A morte de Khamenei explicitou que o objetivo central desta agressão imperialista foi implodir o regime dos aiatolás sem a necessidade de uma invasão territorial. Contudo, a história é uma “professora” implacável: não há registros de sistemas políticos complexos que tenham sido transformados por bombardeios aéreos sem uma ocupação territorial custosa e prolongada. A ilusão de uma “vitória limpa” a 30 mil pés de altitude ignora a resiliência de sociedades sob ataque externo. Os estrategistas do império parecem ignorar que a estrutura do poder iraniano foi desenhada para sobreviver à morte de seu líder, com a Assembleia de Peritos pronta para nomear um sucessor. A probabilidade de êxito desta aposta é quase nula; o que resta é um rastro de destruição.
Mais uma vez, o cheiro de pólvora mistura-se ao de petróleo. Esta intervenção carece de qualquer sombra de legitimidade internacional, ocorrendo precisamente no instante em que os EUA simulavam um retorno à mesa de negociações com o Irã. Esse total desprezo pela diplomacia revela a face mais ardilosa do governo estadunidense: a negociação não passa de uma tática de distração enquanto se calibram os mísseis. Em mais uma “guerra do petróleo” travestida de libertação, a primeira vítima é sempre a confiança nos tratados internacionais, reafirmando que, para o projeto imperialista de hegemonia global, a palavra empenhada vale menos que o controle dos dutos de energia.
É preciso ser categórico: o fato de o regime dos aiatolás ser indefensável em termos de direitos humanos e liberdades civis não confere legitimidade a esta agressão. O obscurantismo iraniano é um problema do povo iraniano e não será superado pela violência covarde que já ceifa vidas inocentes. O caso pavoroso do bombardeio na cidade de Minab, no sul do país, onde mais de 80
meninas foram mortas em uma escola por mísseis da coalizão, serve como o retrato moral desta guerra. Não se exporta democracia sobre os escombros de salas de aula, e a “libertação” que chega através de ogivas é apenas uma nova forma de opressão colonial.
A hipocrisia de Donald Trump atinge seu paroxismo neste conflito. Eleito sob a promessa de encerrar as “guerras intermináveis” e focar no isolacionismo do America First, o republicano promoveu um estelionato eleitoral sem precedentes. Desde a posse do seu segundo mandato, os EUA já desferiram ações militares contra sete países: Iêmen, Irã, Iraque, Nigéria (com mais de uma centena de ataques aéreos contra terroristas do EI), Síria, Somália e Venezuela, onde sequestrou o presidente Nicolás Maduro. Essa fúria intervencionista desmascara o populismo de direita; longe de ser um pacificador, Trump atua como o gestor mais agressivo da máquina de guerra do Pentágono, provando que a estrutura imperialista transcende quem ocupa o Salão Oval.
Condenar esta guerra é um imperativo moral. Assim como é igualmente necessário advertir: não serão bombas estrangeiras que produzirão democracia no Irã. O futuro do país e de seu regime permanece incerto; o que já se pode afirmar, contudo, é que esta agressão covarde tornará a vida do povo iraniano ainda mais dura. A experiência histórica sugere um prognóstico quase evidente: agressões imperiais tendem a endurecer os regimes que pretendem derrubar, ao mesmo tempo que martirizam a população civil. Uma transição democrática genuína só pode nascer da luta e da organização do próprio povo iraniano, jamais da intervenção de potências que nunca ocultaram suas ambições de pilhagem. Sob a aparência tecnológica dos mísseis inteligentes, o colonialismo do século XXI continua sendo, em essência, o mesmo crime de sempre contra a soberania dos povos.
Erick Kayser é historiador e secretário-geral do PT de Porto Alegre.