Brasil: quem sabe faz a hora

“Agora vale a verdade… / feita de canto e de pão” (Thiago de Mello).

1.

Uma divisão social de habilidades está inscrita no DNA do vocábulo “liberal”, cujo trajeto começa antes do sentido político: distingue homens livres dos que não o são. As “artes liberais” englobam profissionais de atividades com independência financeira, em contraste com as multidões confinadas às atividades mecânicas.

A insinuação de que os “populistas” manipulam os trabalhadores retoma a antiga distinção das classes inferiores cativas do trabalho manual, em relação às lides mentais das classes superiores capazes de pensar com autonomia. A aculturação legitima a oscilação permanente de um pêndulo entre o mando e a obediência.

O “bom gosto” é associado aos privilégios classistas, com juízos avalizados pelo consumo de luxo, e não pelo brilho individual de seus consumidores. O preço do rótulo do vinho e os carimbos em série no passaporte para Miami têm a função de separar os plebeus dos aristocratas, no teatro das aparências e dos preconceitos.

O termo adquire a fama de “mente aberta”, “não ortodoxa”, quando o historiador Edward Gibbon em um livro clássico, Declínio e queda do Império Romano, cita as “opiniões liberais” (1781). O epíteto batiza o jornal The Liberal (1822) e o partido político Liberal Party (1859), no Reino Unido. Adeptos da escola, com a aura do livre comércio, arvoram-se donos da liberdade como se esta não fosse amparada no igualitarismo e no solidarismo. O discurso da economia ganha foro de fiador.

Na sequência, o “liberalismo” postula o “livre arbítrio”. O derivativo “libertário” designa o socialismo comunal, sem controle centralizado. Já o oxímoro “anarco / capitalista” dos ultraliberais confunde alhos e bugalhos. Afinal, o anarquismo e o capitalismo são duas ideologias antagônicas. Resultado: palhaços sociopatas.

O individualismo é herança do liberalismo. O hiperindividualismo é produto do neoliberalismo, que celebra as virtudes do self-made man e apaga os deveres do Estado para com a população.“A sociedade não existe, o que existe são indivíduos e suas famílias”, diz a conservadora dama-de-ferro neoliberal Margaret Thatcher.

Tradução: o problema da pobreza, do racismo, do sexismo e do etarismo não é do Estado; senão dos pobres; pretos; vítimas de discriminação sexual; jovens ou idosos. Todos órfãos do Estado que se exime de formular e implementar políticas públicas e sociais. Eis a reatualização prática da “guerra de todos contra todos”.

O empreendedorismo oculta a uberização e as desregulamentações que afetam o labor e romantizam entrepreneurs. As subjetividades ajustam-se ao vocabulário das empresas – custo, produção, rendimento, lucro, prazo de validade. Na dança das cadeiras, cada persona é um empresário de si. Uma insegurança paira no ar. Pacientes nos consultórios Psi utilizam a terminologia reificada dos balancetes gerenciais para falar de sentimentos, submetendo a palavra à lógica mercantil.

2.

A demokratia dos gregos (demos/povo, kratos/governo), depende do significado dos construtos. O agronegócio entende por povo os estrangeiros que compram as commodities e, por governo, o socorro às exportações em queda. As Bolsas de Valores entendem por povo os especuladores ditos investidores e, por governo, os dividendos do dinheiro sobre o dinheiro sem uma mediação. Big techs entendem por povo os internautas e, por governo, os algoritmos da Inteligência Artificial (IA).

A fé cega na tecnologia substitui a crença na política e os influencers sequestram o papel dos partidos políticos. Quem ameaça o direito ao futuro foge da cena do crime, enquanto os demagogos transformam a miséria em um espetáculo na TV e travestem criminosos em heróis. A inversão é perversa por absolver os culpados e cancelar a consciência dos fatos. O lawfare corrompe provas e a própria justiça.

Elogiar o equilíbrio fiscal na esfera estatal é mais importante do que denunciar os altos juros da Taxa Selic que sacrificam as indústrias e ainda o crediário no varejo. A política monetária do Banco Central oculta, sob risco, da inflação uma absurda transferência de R$ hum trilhão anual aos inativos rentistas sem cobrar impostos.

A esquerda? Perfila-se com os antigos escritores. Tucídides: “tudo que se opõe ao poder despótico tem o nome de democracia”. Aristóteles: “uma democracia é um Estado em que homens (e mulheres) livres e os pobres, sendo em maioria, são investidos do poder de Estado”. As assertivas mantêm um conteúdo de verdade; apesar dos modernos deslocarem o foco para as “regras do jogo”. Fenômeno que sintetiza a rendição ao status quo e o esvaziamento de classe da democracia.

Para o pior. Sob efeito da febre bolsonarista: um governador brasileiro põe o boné MAGA (Make America Great Again), ajoelha-se ao neocolonialismo imperialista; e um senador miliciano candidata-se ao Palácio do Planalto com a bandeira norte-americana no palanque. O cinismo, o vazio de propostas e uma cumplicidade da mídia corporativa explicam a desfaçatez dos desprezíveis traidores da pátria.

Para o melhor. Liderada pelo presidente Lula da Silva, a marcha da sensatez pela soberania nacional une os progressistas, barra os avanços da extrema direita e fortalece a autodeterminação do continente sul-americano. O Brasil é maior do que as elites vira-latas; e não precisa protelar os seus sonhos indefinidamente. “Quem sabe faz a hora, / não espera acontecer”, canta o músico Geraldo Vandré.

Luiz Marques é Docente de Ciência Política na UFRGS; ex-Secretário de Estado da Cultura / RS.

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