A opção por ancorar a análise dos partidos na democracia brasileira em uma narrativa histórica de longo alcance faz justiça à coerência da práxis de Raul Pont, que vem desde os anos sessenta do século passado. Ele é, com certeza, no âmbito dos atuais dirigentes públicos da esquerda brasileira, aquele que em sua práxis coletiva mais defendeu com plena coerência a formação democrática do partido socialista, a necessidade da reforma do sistema político eleitoral em dimensões republicanas e a convergência das esquerdas em uma frente única pelas transformações do país.
A opção por pensar a história dos partidos a partir de seus programas históricos é fundamental para entender o alcance de seu protagonismo e a própria longevidade deles. Daí a importância que o artigo confere à refundação das esquerdas brasileiras a partir do debate travado nos anos sessenta e continuado nas décadas seguintes sobre o caráter socialista da revolução brasileira. Esta compreensão orienta a construção histórica de uma organização partidária enraizada nas classes trabalhadoras e populares sem alianças estratégicas com a burguesia. E o caráter necessariamente democrático do partido da transformação, no sentido de ir formando uma força crescentemente majoritária e hegemônica a partir da consciência das classes trabalhadoras.
É a partir da compreensão do caráter reacionário das burguesias brasileiras, crescentemente financeirizadas e vinculadas ao capital internacional, que se identifica a incapacidade dos partidos liberas e neoliberais de formar uma base social democrática estável. Daí o fracasso histórico da UDN, do PSDB e a forma farsesca assumida pelo atual PL.
É também a partir do caráter socialista da revolução e da impossibilidade histórica de formar um arranjo estratégico com as burguesias nacionais que se analisa o impasse histórico do antigo PTB e do PDT, liderado por Brizola no período após a ditadura militar. A dificuldade reiterada dos Partidos Comunistas, que orientam a sua estratégia através destas alianças, de formarem uma base social estável derivaria deste limite programático e estratégico jamais superado.
Por esta via, de uma história que vai além das conjunturas e circunstância, que se lança luz sobre os impasses na construção do PT. O programa de transformações estruturais, a capacidade de lutar por reformas republicanas e participativas nas formas da democracia brasileira, a construção democrática, pluralista e de base do PT foram nestas décadas severamente limitadas por uma conjuntura internacional extremamente adversa aos socialistas democráticos.
Estes limites não conseguiram travar o caminho do PT e da coalizão de partidos que organiza para formar maiorias já em cinco eleições presidenciais. Mas foram insuficientes para formar uma base parlamentar e, principalmente, uma força social ativamente organizada para realizar reformas que questionem os paradigmas neoliberais do Estado brasileiro. Ao alongar a vista para o passado que nos constituiu, esta preciosa elaboração de Raul Pont nos convida a alongar também a vista para um PT capaz de liderar um futuro possível de transformações para além do capitalismo neoliberal.
Juarez Guimarães é professor de Ciência Política da UFMG e membro da Coordenação Nacional da Democracia Socialista.