O brilho do cinema brasileiro na 83ª edição do Globo de Ouro, realizada ontem em Los Angeles, não foi apenas uma vitória estética; foi o resultado tangível de uma política de Estado que decidiu, após anos de paralisia, tratar a cultura como um motor econômico e diplomático. Com a vitória histórica de Wagner Moura como Melhor Ator em Filme de Drama — o primeiro brasileiro a conquistar esse feito — e a consagração de “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, como Melhor Filme em Língua Não Inglesa, o Brasil reafirmou seu lugar na elite do audiovisual global.

Wagner Moura repete o feito da atriz Fernanda Torres, que venceu na categoria de melhor atriz em filme de drama, no ano passado, com o filme “Ainda estou aqui”, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2025. As duas obras tratam do direito do povo brasileiro à memória, desvelando os crimes da ditadura militar.
A glória alcançada ontem no Globo de Ouro é o capítulo mais recente de uma trajetória de resistência e brilhantismo desde a Palma de Ouro de “O Pagador de Promessas” (1962) e os Ursos de Ouro em Berlim de “Central do Brasil” (1998) e “Tropa de Elite” (2008). O vigor do cinema brasileiro também se mede nos documentários. Desde a indicação ao Oscar de “Raoni” (1979) até os mais recentes e aclamados “Lixo Extraordinário” (2011) e “Democracia em Vertigem” (2020) — este último um marco na análise das crises institucionais brasileiras —, o Brasil consolidou uma escola de “cinema do real” respeitada globalmente. Vitórias contemporâneas, como o Leão Queer em Veneza, para o documentário “Alma do Deserto” (2024) e o sucesso de “Apocalipse nos Trópicos” mostram que, seja na ficção de Kleber Mendonça Filho ou no olhar agudo dos nossos documentaristas, o audiovisual brasileiro permanece como uma das ferramentas mais potentes de interpretação da realidade e afirmação da nossa identidade no exterior.
Para além do talento inegável de Kleber, Wagner, elenco e equipe de produção de O Agente Secreto, é preciso lembrar que a premiação internacional também é decorrente da retomada de um ciclo de investimentos que começou em janeiro de 2023, com a recriação do Ministério da Cultura (MinC). Nos últimos três anos, o governo Lula implementou o maior volume de recursos da história do setor, criando uma rede de segurança financeira que permitiu a produtores e cineastas sonharem alto novamente.
São exemplos deste novo patamar a Lei Paulo Gustavo, com um aporte imediato de R$ 3,8 bilhões que irrigou estados e municípios, focando especialmente no setor audiovisual; a Política Nacional da Lei Aldir Blanc, com repasses anuais de R$ 3 bilhões até 2027. Isso trouxe previsibilidade, algo que o cinema — que leva anos entre roteiro e estreia — exige. Somam-se a estes dois programas, o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), reativado com força total, selecionando projetos de grande escala, como os que competem em festivais internacionais; e também os patrocínios da Petrobras e outras estatais que, em 2025, investiram cerca de R$ 307 milhões, um contraste abismal com os anos de descaso do governo anterior.
Assim como os nossos premiados Ainda estou aqui e o O agente Secreto, também se faz necessário o direito à memória na forma de tratamento que a Cultura recebeu no governo anterior, num paralelo com o Governo Lula. Nunca é demais lembrar que, no governo Bolsonaro, a política cultural foi reduzida a uma Secretaria Especial subordinada ao Ministério de Turismo, que o Iphan sofreu com cortes sistemáticos e o Fundo Setorial Audiovisual ficou quase congelado.
Além disso, Bolsonaro construiu um discurso de ódio que ataques sistemáticos a artistas. Um exemplo desta postura foi a redução do teto da Lei Rouanet, flertando com a enxurrada e fake news que buscam criminalizar esta importante política cultural. Foi um período de asfixia da cultura brasileira, com a utilização da estrutura pública para tentar controlar conteúdos ou inviabilizar financeiramente produções que considerava “ideológicas”.
Com o governo Lula, a cultura e o cinema basileiro saíram da “era do apagão” para a “era do reconhecimento”. Filmes como “O Agente Secreto” chegam ao Globo de Ouro com o suporte de uma indústria que voltou a ter crédito, editais claros e apoio diplomático para promoção no exterior.
A imagem de Wagner Moura levantando a estatueta e celebrando, em português, com o Brasil e a Cultura Brasileira é o símbolo de um país que voltou a investir no cinema. A vitória de ontem prova que, quando o Estado oferece as ferramentas e a liberdade necessária, o talento brasileiro não tem fronteiras.
O Globo de Ouro deve ser festejado pelo povo brasileiro em clima de carnaval, como incentivou Wagner Moura, para que versões de complexo de vira-latas, que destacam a derrota na categoria de melhor filme não se sobreponham a memorável vitória alcançada por Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura. Mas o bicampeonato no Globo de Ouro também é um convite ao povo brasileiro se reencontrar com sua memória e reafirmar a democracia. Em ano eleitoral, lembrar do passado – remoto ou recente – é a melhor forma de garantir que o Brasil não se esqueça, para que nunca mais aconteça.
Eliane Silveira é Jornalista e Licenciada em Ciências Sociais.