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O trumpismo fracassou | Emir Sader

“A extrema direita veio para ficar no campo político, tanto nos Estados Unido como no Brasil, como corrente política e ideológica. Mas perderá muito da sua atração por ter fracassado como governo”

A derrota de Trump não é apenas uma derrota eleitoral. Expressa o fracasso de um estilo de governo, que se pode chamar de trumpismo, porque se reproduziu em outros lugares, a começar pelo Brasil.

Trump e Bolsonaro foram modelos de governo de extrema direita, alternativos dentro da direita. A direita se encontrava em crise, desde que adotou o modelo neoliberal. Dado que esse modelo concentra riqueza, promove apenas os interesses do capital financeiro e a desigualdade sem capacidade de obter bases sociais de apoio que permitam ter governos com estabilidade politica. A direita tradicional foi perdendo eleições e revelando sua incapacidade para combinar o modelo neoliberal com força política.

O trumpismo aparecia como modalidade nova de direção política, que tratava de recolher críticas acumuladas contra a democracia liberal, contra os parlamentos, contra o Judiciário, contra a mídia, mas com uma ótica de extrema direita. Pretendia capitalizar o desgaste da política, propondo uma nova forma de fazer política, supostamente sem corrupção.

Conseguiu, assim, reconstituir o campo do debate político com uma base específica de apoios e colocar as outras interpretações na defensiva. Polarizou a vida política em torno dos lideres políticos e dos seus governos, com estilo agressivo, declarações na contramão dos consensos até então existentes e provocando escândalo na opinião pública. Pretendia expressar a “maioria silenciosa” de que falava Richard Nixon, que teria ficado calada, mas revoltada contra a liberalização dos costumes, contra os direitos humanos, contra a democratização política, contra a proteção do meio ambiente, contra os movimentos de defesa dos direitos das mulheres, dos negros, dos jovens, dos LGBT. Setores que se reconheceriam nas declarações extremamente conservadoras desses novos líderes.

Trump foi o candidato a que a direita norte-americana apelou, a contragosto da direção do Partido Republicano, impondo-se como outsider, via mídia. Impôs-se ao Partido Republicano, ganhou as eleições no Colégio Eleitoral, impedindo a continuidade do governo Obama com Hillary Clinton.

Impôs um estilo de conflito, antes de tudo com a mídia, considerada como inimiga, constituindo uma base radicalizada de apoio à qual se somavam setores que se sentiram órfãos de um sistema político e de um modelo econômico que não os contemplava. Congregou sua base de apoio com seu discurso, mas aprofundou as cisões no conjunto da sociedade.

Foi um estilo político de grande sucesso no seu surgimento, com suas críticas voltadas para os outros, como livre atirador. Deu certo, até que chegou ao governo e permitiu que suas palavras fossem confrontadas com seus atos.

 A campanha eleitoral deste ano foi a hora da verdade de Trump. Ele terminou derrotado, embora com grande votação, porque foi julgado pelo governo que fez, incapaz do combate à pandemia, pelo negacionismo que caracteriza esses governantes, assim como pela sua negação dos direitos humanos, do racismo, da discriminação.

 Sua derrota mostra o fracasso do trumpismo e aponta futuro similar para o Bolsonaro. O Partido Republicano se condenará ao suicídio se pretender manter a Trump como seu líder. Um político que se desgasta ainda mais com a atitude que tem diante da sua derrota eleitoral. Além de que o trumpismo pode servir como estilo de governo, mas não serve para fazer oposição.

Outra coisa é que a extrema direita veio para ficar no campo político, tanto nos Estados Unido como no Brasil, como corrente política e ideológica. Mas perderá muito da sua atração por ter fracassado como governo. A direita terá que voltar a apelar para seus partidos e candidatos tradicionais. Pode ser que a extrema direita continue a polarizar contra a esquerda, mas sem os apelos que tinha quando eram livres atiradores.

A boa votação que teve Trump não é suficiente para definir sua continuidade como líder da direita norte-americana. Sua imagem se desgasta a cada dia que não aceita sua derrota. Importantes líderes do Partido Republicano divergem publicamente dele porque sabem que não é uma posição sustentável para o partido. O partido tem a metade dos governadores dos Estados Unidos, que não podem governar numa postura como a de Trump.

A direita gastou a alternativa do trumpismo sem conseguir fazer governos de sucesso, que são o patrimônio que fica para uma corrente política. Como forca opositora, o trumpismo funcionou, nas não passou pela prova de ser governo e tende a perder protagonismo como alternativa politica.

Emir Sader é sociólogo e cientista político

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