Uberes

Dr. Rosinha

As músicas, com raras exceções, são um “deuses me acudam”. Não consigo ouvir o tal do sertanejo universitário, cuja audiência neste meio de transporte compete com o funk e gospel

Ilustração: Benett

Por cerca de 30 dias fiquei sem carro, o que me obrigou, o que não é nada de mais, a usar ônibus, táxis e carros a serviço do aplicativo Uber.

Foram muitas as viagens e no transcurso delas sempre procurei falar pouco, porém houve situações em que foi impossível. Em um destes casos, assim que abri a porta e coloquei o primeiro pé dentro do carro, e foi o esquerdo, ouvi:

– Bom-dia, Soberano.

Escrevo em maiúscula porque um soberano minúsculo – embora na história do mundo tenham sido muitos – não é levado a sério e no caso senti na entonação da voz que queria me dar importância.

Apesar da ‘consideração’ o epíteto não me caiu bem, demorei alguns segundos para me recuperar, respirar e responder:

– Bom dia.

Saiu um pouco seco e, para não ser irônico, não acrescentei meu súdito.

Creio que este tratamento não era exclusividade e que provavelmente era usado para todas as pessoas que transportava. Talvez agrade muita gente, mas a mim não, deu-me a impressão de subserviência.

– Qual é o estilo que o senhor gosta?

Como não sabia do que estava falando pergunto:

– Estilo de quê?

– De nadar.

Só então me dei conta que o aplicativo indicava o meu destino: escola de natação.

– Ah! Costas.

Respondi rápido e sumariamente com o objetivo de ficar quieto. Mera ilusão. O diálogo, quase monólogo durou até o fim da viagem, que felizmente era curta.

Também passei a observar outras questões como o rádio ligado e o que era ouvido, se o carro estava limpo, batido ou arranhado, se bancos estavam íntegros, etc.

Constatei que no geral a qualidade sonora é lamentável, tanto que em uma das viagens, mais longa, tive que inventar uma dor de cabeça e pedir para desligar, não suportei a pregação de um pastor fundamentalista. Ou ele desligava ou eu era obrigado a me contrapor ao que ouvia. Mas como não gosto de muita conversa preferi uma mentira. Foi uma mentirinha só.

As músicas, com raras exceções, é que são um “deuses me acudam”. Não consigo ouvir o tal do sertanejo universitário, cuja audiência neste meio de transporte compete com o funk e gospel.

Surpresa: em uma ocasião tocava música clássica.

Houve uma viagem que merece registro.

Em Pelotas contratei um carro para me levar do aeroporto até o hotel. O motorista, um homem de cerca de 40 anos, falante e de aspecto sofrível.

Assim que embarco ele emenda uma série de perguntas:

– De onde o senhor vem?

– O que vem fazer?

– Onde o senhor trabalha?

Respondo-as e resolvo revidar:

– Quanto tempo trabalha com a Uber? Gosta? Financeiramente compensa?

Esta última pergunta não era necessária, bastava observar a roupa, o aspecto triste do homem e as condições do carro.

Na resposta, além das queixas usuais que dão os motoristas conscientes da exploração a que são submetidos, aproveitou e emendou críticas aos políticos colocando-os todos dentro do mesmo saco.

Com calma e didaticamente respondi a todas e procurei demostrar que há diferenças entre os políticos, principalmente os citados.

Sentado no banco de trás, quando a velocidade era baixa, quase parando, nada acontecia, ao chegar próximo a 40 km/h o carro jogava a traseira de um lado para o outro e, mesmo usando o cinto de segurança, o meu corpo dançava quase que de um ponta a outra do banco.

Ao final de qualquer viagem surgem as estrelinhas para avaliar o motorista e o carro. Em casos como este o que fazer?

O sujeito estava triste, mal ajambrado, o carro precisando de oficina e funilaria, se marcasse menos de cinco só iria piorar a situação dele. Como sempre dei a nota máxima.

Somente uma vez dei a nota mínima. Estava parado sobre a calçada esperando o carro para embarcar. Apesar de ter sido visto e ter dado sinal, o motorista não parou, foi até o final da rua e voltou me obrigando a atravessá-la. Embarco, sento-me, coloco o cinto e pergunto:

– Você me viu do outro lado?

– Sim.

– Então por que não parou?

– Porque é proibido.

– Não é, tanto que há uma placa mostrando que é permitido. Proibido é aqui onde você parou, em fila dupla.

Irritado reage:

– O senhor está fazendo muita pergunta. Pode descer, não vou levá-lo.

– Mas, como descer? Já paguei a corrida através do cartão.

Ainda, parado em fila dupla, repete:

– Pode descer.

Travamos uma breve discussão.

Ele não tirou o carro do lugar.

Desci.

Dr. Rosinha é médico, ex-deputado federal, funcionário do Ministério da Saúde.

Via Jornal Plural

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